sexta-feira, 31 de julho de 2026

Orgulho (PROUD, Polônia, 2026)

Há algo irônico no título "Proud". A série polonesa, criada por Karol Klementewicz, começa mergulhada em excessos, sexo, drogas, música eletrônica, corpos em movimento,, mas rapidamente revela que seu verdadeiro tema não é o orgulho como afirmação identitária, e sim o longo caminho até merecê-lo. O protagonista Filip Raczyński (Ignacy Liss) surge como um jovem modelo gay hedonista, egoísta e emocionalmente imaturo, alguém que parece viver apenas para a próxima festa. Quando uma tragédia familiar o obriga a assumir responsabilidades inesperadas, a série abandona a superfície brilhante da noite de Varsóvia e se transforma em um drama sobre luto, cuidado e amadurecimento. 

Ignacy Liss  evita qualquer caricatura do “garoto perdido” e constrói um personagem simultaneamente irritante, sedutor, frágil e humano. Filip frequentemente toma decisões ruins, mente, foge e se sabota, mas a série nunca o julga. Há momentos em que seu narcisismo provoca rejeição; em outros, sua vulnerabilidade desmonta completamente a imagem de autossuficiência que tenta sustentar. Liss recebeu o prêmio de Melhor Ator no Series Mania: ele carrega a narrativa com uma mistura de carisma e desamparo.

 “Proud” mostra sexo, desejo, aplicativos, boates e amizades queer com naturalidade. Ao mesmo tempo, a produção não ignora o contexto polonês. A dificuldade de um homem gay ocupar o lugar de cuidador, as barreiras legais e sociais, e a sensação constante de precisar provar sua legitimidade atravessam a narrativa. O mérito de Klementewicz está em evitar tanto o panfleto quanto a neutralidade confortável: a homofobia existe, mas o foco permanece nas relações humanas, especialmente na ideia de família escolhida como espaço de afeto e sobrevivência. 

A fotografia de Weronika Bilska alterna o neon intoxicante das noites de Varsóvia com uma luz fria e silenciosa nos momentos domésticos, criando um contraste constante entre fuga e responsabilidade. A série compreende que o excesso pode ser tão solitário quanto o isolamento, e traduz isso com uma linguagem audiovisual elegante, contemporânea e extremamente sensorial.

O formato de oito episódios de cerca de 35 minutos favorece a intensidade, mas também cria a sensação de que determinadas relações evoluem rápido demais. Ainda assim, a série compensa essas irregularidades com diálogos afiados, humor bem dosado e uma capacidade de encontrar ternura em situações de caos absoluto. Mesmo a presença da pequena Tosia evita o sentimentalismo, a relação entre ela e Filip é construída com hesitação, estranhamento e descobertas graduais, não como milagre emocional instantâneo.

“Proud” trata da parentalidade queer não como exceção exótica, mas como experiência humana. A série entende que crescer muitas vezes significa abandonar a fantasia de liberdade absoluta e aceitar que o amor também é responsabilidade, rotina e medo. Sem spoilers, basta dizer que o desfecho preserva a honestidade emocional que sustenta toda a temporada. A atração encontra sua singularidade ao unir comentário social, erotismo, humor sombrio e uma sensibilidade genuína para personagens falhos.

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Wild Foxes (La Danse des renards, Bélgica/França, 2025)

"Wild Foxes", de Valéry Carnoy, é ambientado em um internato esportivo de alta performance, o longa acompanha Camille (Samuel Kircher), um jovem boxeador promissor que sobrevive a um acidente graças à intervenção do melhor amigo, Matteo (Fayçal Anaflous). A recuperação parece bem-sucedida, mas uma dor misteriosa começa a se espalhar por seu corpo, ameaçando não apenas sua carreira, mas a própria identidade construída em torno da força e da invulnerabilidade.

O primeiro grande mérito de Carnoy é subverter os clichês do cinema esportivo. Não há aqui a trajetória clássica do atleta rumo à glória, mas um processo de desintegração física e emocional. O boxe funciona menos como espetáculo e mais como ritual de masculinidade, um espaço onde dor, disciplina e silêncio são tratados como virtudes absolutas. Quando Camille já não consegue controlar o próprio corpo, ele deixa de corresponder ao ideal do “campeão” e passa a ocupar uma posição de estranhamento dentro daquele universo. A doença, nunca reduzida a um diagnóstico, transforma-se em metáfora para a crise de identidade masculina na passagem da adolescência para a vida adulta.

A relação entre Camille e Matteo é outro mérito do do filme. Carnoy evita definir essa dinâmica de forma explícita, mas constrói uma intimidade carregada de tensão, dependência e ciúme. O acidente inicial cria um vínculo quase traumático entre os dois, e cada gesto posterior parece atravessado por sentimentos que excedem a amizade esportiva convencional. O subtexto queer emerge justamente dessa ambiguidade: o filme observa como ambientes hipermasculinos frequentemente reprimem qualquer forma de afeto que possa ameaçar a performance da virilidade.

A fotografia, de Arnaud Guez, reforça essa leitura com precisão. Os closes nos corpos suados, nos hematomas, nas mãos enfaixadas e nos rostos exaustos transformam o boxe em uma experiência sensorial e quase tátil. Há momentos em que o contato físico violento dos treinos se converte em uma forma de intimidade involuntária, produzindo uma atmosfera de homoerotismo latente sem jamais abandonar o realismo

"Wild Foxes" é um filme sobre o corpo como espaço de dissidência. Quando Camille já não consegue performar a masculinidade exigida pela academia, ele é forçado a confrontar quem existe por trás do atleta, do lutador e do “vencedor”. Valéry Carnoy transforma a dor em linguagem cinematográfica e encontra beleza justamente naquilo que o esporte costuma tentar esconder: a fragilidade.


quarta-feira, 29 de julho de 2026

Feud: Capote Vs The Swans (EUA, 2022)

Depois de sete anos desde a brilhante e venenosa "Feud: Bette and Joan", Ryan Murphy retorna à antologia com uma proposta irresistível: transformar o escândalo literário envolvendo Truman Capote e suas socialites favoritas em um melodrama de luxo. Escrita por Jon Robin Baitz e com episódios dirigidos  por Gus Van Sant, "Feud: Capote vs. The Swans" acompanha a ascensão de Capote ao coração da elite nova-iorquina e sua queda após a publicação de "La Côte Basque 1965", capítulo do romance inacabado "Súplicas Atendidas", no qual expôs os segredos mais íntimos de mulheres como Babe Paley, Slim Keith, C.Z. Guest e Lee Radziwill. Baseada no livro Capote's Women, de Laurence Leamer, a série possui todos os ingredientes do grande espetáculo murphyano: glamour, traição, álcool, ressentimento e decadência.

O que surpreende, porém, é que a série está menos interessada na fofoca do que na melancolia. Em vez de apostar no camp histérico que muitos esperavam, Baitz transforma a narrativa em um estudo sobre amizade, dependência emocional e solidão. A relação entre Capote e Babe Paley emerge como o verdadeiro centro afetivo da obra. O escritor não aparece apenas como um traidor cruel, mas como um homem dividido entre a necessidade de ser amado e a compulsão de transformar a vida dos outros em literatura. 


Tom Hollander entrega uma interpretação extraordinária de Truman Capote. Sem imitar mecanicamente a voz ou os maneirismos do escritor, o ator captura sua inteligência ferina, seu humor devastador e, sobretudo, sua fragilidade. Ao seu redor, o elenco feminino é um desfile de precisão: Naomi Watts dá a Babe Paley uma elegância dolorosa; Diane Lane transforma Slim Keith em uma mistura deliciosa de sarcasmo e amargura; Chloë Sevigny encontra humanidade sob a superfície aristocrática de C.Z. Guest; e Calista Flockhart faz de Lee Radziwill uma figura permanentemente à sombra do brilho alheio. Até participações menores, como Demi Moore e Jessica Lange, deixam marcas profundas. A série funciona, em grande parte, como uma celebração do poder das atrizes.

A atração constrói um dos retratos mais sedutores da Nova York das décadas de 1960 e 1970. Figurinos assinados por Zac Posen, cenários opulentos e uma fotografia que alterna sofisticação clássica e decadência alcoólica transformam cada episódio em um editorial de moda melancólico. O episódio dedicado ao lendário Black and White Ball é exemplar: a série utiliza uma estética de falso documentário em preto e branco para recriar não apenas uma festa, mas o momento exato em que Capote compreendeu o funcionamento da celebridade moderna. 

A série levanta hipóteses fascinantes, misoginia, inveja, ressentimento de classe, alcoolismo, autossabotagem, mas raramente escolhe uma delas para desenvolver com profundidade. Em determinados momentos, a narrativa se dispersa em flashbacks, fantasmas e monólogos que enfraquecem a tensão dramática.

Mas talvez essa falta de diversão seja precisamente o ponto. "Feud: Capote vs. The Swans" é menos uma guerra de socialites do que um réquiem para um mundo desaparecido: a velha alta sociedade nova-iorquina, os almoços intermináveis, os segredos protegidos pelo dinheiro e o escritor gay que, ao mesmo tempo, era mascote, confidente e intruso. A série entende que Capote jamais foi totalmente aceito por aquelas mulheres, assim como elas jamais compreenderam inteiramente o homem que transformou suas vidas em matéria-prima literária. No fim, o verdadeiro escândalo não é a traição, mas a impossibilidade de separar amor, amizade e criação artística.


terça-feira, 28 de julho de 2026

Leviticus (Austrália/EUA, 2026)

Adrian Chiarella transforma um dos livros mais frequentemente utilizados para justificar a homofobia em uma poderosa inversão simbólica. "Leviticus" acompanha Naim (Joe Bird), um adolescente recém-chegado a uma pequena comunidade cristã no interior da Austrália, que se apaixona por Ryan (Stacy Clausen). Depois que os dois são submetidos a um ritual de conversão religiosa, passam a ser perseguidos por uma entidade sobrenatural capaz de assumir a forma da pessoa que mais desejam: um ao outro. A partir dessa premissa engenhosa, o diretor constrói um horror romântico que utiliza o sobrenatural para materializar a violência psicológica produzida pelo fanatismo religioso e pela repressão do desejo.

O grande acerto de Chiarella está em compreender que o verdadeiro monstro nunca é apenas a criatura que ronda os protagonistas. A entidade funciona como uma manifestação física da culpa, da vergonha e do medo cultivados por uma comunidade incapaz de aceitar qualquer forma de diferença. O horror nasce justamente da perversidade desse mecanismo: quanto maior o amor entre Naim e Ryan, mais poderosa se torna a ameaça. É uma metáfora elegante para os efeitos da chamada terapia de conversão, transformando a própria intimidade dos personagens em território de terror.

"Leviticus" nunca reduz seus protagonistas à condição de vítimas. Joe Bird entrega uma interpretação delicada, marcada pela timidez e pela insegurança, enquanto Stacy Clausen constrói Ryan como alguém que encara seus sentimentos com maior espontaneidade. A química entre os dois sustenta a dimensão romântica do filme e impede que a narrativa seja dominada apenas pelo sofrimento. Chiarella demonstra enorme sensibilidade ao retratar o primeiro amor como um espaço simultaneamente de descoberta e de risco, fazendo com que cada gesto de afeto adquira enorme peso emocional.


O próprio título, retirado do livro bíblico tantas vezes mobilizado contra pessoas LGBTQIA+, é ressignificado pelo diretor como um gesto de enfrentamento. A criatura que assume o rosto da pessoa amada traduz de forma visual o trauma da homofobia internalizada, enquanto o ambiente religioso revela como instituições podem transformar afeto em pecado e desejo em punição. Ainda assim, Chiarella evita o fatalismo. 


Tecnicamente, "Leviticus" aposta numa mise-en-scène contida e extremamente eficiente. A fotografia, de Tyson Perkins, explora paisagens rurais áridas e espaços religiosos opressivos, enquanto a montagem  privilegia o suspense gradual em vez de sustos fáceis. A criatura permanece parcialmente oculta durante boa parte, aumentando a sensação de inquietação. Embora as influências de "It Follows", "The Witch" e até do horror psicológico japonês sejam perceptíveis, Chiarella consegue desenvolver uma identidade própria ao colocar o terror sempre a serviço das emoções dos personagens, nunca do espetáculo gore.

Em sua estreia em longa-metragem, Adrian Chiarella demonstra compreender o potencial político do horror. "Leviticus" utiliza monstros, possessões e perseguições para falar sobre vergonha, exclusão e sobrevivência, mas encontra sua maior força justamente naquilo que resiste ao medo: o amor entre dois jovens que se recusam a aceitar a violência como destino inevitável. O resultado é um filme que dialoga com o melhor do horror contemporâneo sem abrir mão da emoção.


segunda-feira, 27 de julho de 2026

Mentes Extraordinárias 2ª Temporada (Brilliant Minds, EUA, 2025-2026)

 "Mentes Extraordinárias" encerra sua trajetória reafirmando que a medicina começa quando se enxerga a pessoa, não apenas a doença. Inspirada na vida e na obra do neurologista Oliver Sacks, a segunda e última temporada segue o Dr. Oliver Wolf (Zachary Quinto) e sua equipe no Hospital Geral do Bronx enquanto enfrentam casos neurológicos raros, dilemas éticos e conflitos íntimos. Ao longo de 20 episódios, a série amplia seu alcance ao discutir saúde mental, relações afetivas e vulnerabilidades sem perder de vista aquilo que sempre a distinguiu: a curiosidade científica colocada a serviço da empatia. A adaptação criada por Michael Grassi encontra um encerramento agridoce, consciente de que muitas histórias permanecerão abertas após o cancelamento da produção.

Ao mesmo tempo, a temporada joga o foco para os próprios médicos. Wolf continua convivendo com a cegueira facial, enfrentando seus próprios demônios, em uma grande jogada narrativa, mas Josh Nichols (Teddy Sears) também ganha maior profundidade dramática ao lado da chefe de psiquiatria Carol Pierce (Tamberla Perry). Entre eles, merece destaque a participação de Marco Pigossi como o neurocirurgião Beau Pedrosa, cuja presença acrescenta dinamismo ao triângulo amoroso central, ainda que pudesse ter sido explorada de maneira mais consistente.

O relacionamento entre Oliver Wolf e Josh Nichols amadurece lentamente até culminar no aguardado beijo (e que beijo!), encerrando uma tensão afetiva construída desde o primeiro ano. A série evita transformar essa relação em conflito permanente, preferindo tratá-la como parte da vida cotidiana daqueles personagens. Essa escolha dialoga diretamente com o legado de Oliver Sacks, cuja própria trajetória pessoal inspirou uma visão profundamente humanista sobre identidade, diferença e pertencimento.

Também chama atenção o equilíbrio entre casos médicos episódicos e os grandes arcos emocionais. Alguns episódios funcionam quase como pequenos filmes independentes, capazes de discutir abuso institucional contra idosos, saúde mental dos próprios profissionais ou os efeitos psicológicos de doenças degenerativas. Embora "The Way Home" ofereça fechamento emocional para Wolf e Nichols, diversas linhas narrativas terminam com evidente sensação de interrupção, deixando clara a impressão de que havia planos para um terceiro ano.


Ainda assim, "Mentes Extraordinárias" despede-se preservando aquilo que sempre foi sua maior qualidade: lembrar que a medicina é também um exercício de humanidade e escuta. Em um cenário televisivo frequentemente seduzido pelo sensacionalismo, a série encontrou sua identidade ao transformar neurologia, psiquiatria e ciência em ferramentas para compreender a complexidade humana. O resultado talvez não tenha alcançado a popularidade de outros dramas hospitalares, mas deixa um legado raro de sensibilidade, inteligência e respeito pelos pacientes e por aqueles que dedicam suas vidas a cuidar deles.


sábado, 25 de julho de 2026

Her Private Hell (Dinamarca/EUA, 2026)


Depois de uma década longe dos longas-metragens, Nicolas Winding Refn retorna com "Her Private Hell", obra que reafirma tanto suas maiores virtudes quanto seus excessos. Ambientado em uma metrópole futurista envolta por uma névoa misteriosa, o filme segue a jovem Elle (Sophie Thatcher), que parte em busca do pai, Johnny Thunders (Dougray Scott), enquanto sua trajetória se cruza com a de Private K (Charles Melton), um soldado em uma jornada desesperada para encontrar a filha desaparecida. Entre esses dois percursos, Refn constrói uma narrativa que mistura horror,sci-fi, melodrama e fantasia sombria,.

Desde os primeiros minutos, fica evidente que o diretor continua obcecado por imagens que transformam o cinema em instalação artística. A fotografia de Magnus Nordenhof Jønck inunda a tela com néons vermelhos, azuis e magentas, enquanto a direção de arte cria espaços que parecem existir entre um pesadelo cyberpunk e um conto de fadas perverso. Há momentos em que Refn alcança um raro estado de fascínio visual, lembrando por que obras como "Drive" e "The Neon Demon" consolidaram sua reputação como um dos grandes estilistas do cinema contemporâneo.

Ao mesmo tempo, "Her Private Hell" evidencia uma característica que acompanha a filmografia recente do cineasta: a dificuldade em equilibrar forma e dramaturgia. A narrativa fragmentada aproxima diferentes linhas temporais, sonhos, alucinações e referências mitológicas sem oferecer pontos de apoio consistentes ao espectador. A sensação de mistério é sedutora durante boa parte, mas, à medida que os acontecimentos se acumulam, muitos conflitos permanecem deliberadamente opacos.

Embora não seja um filme centrado em personagens LGBTQIA+, a obra preserva o olhar de Refn para identidades e corpos que escapam às convenções. O desejo circula de maneira fluida, as figuras femininas desafiam papéis tradicionais e a atmosfera erotizada dissolve fronteiras entre atração, violência e poder. Mais do que representar identidades específicas, o diretor trabalha o corpo como território de transformação e estranhamento, onde gênero, sexualidade e fantasia coexistem em permanente estado de instabilidade.

As atuações acompanham essa lógica de estilização. Sophie Thatcher entrega uma protagonista vulnerável, mas enigmática, sustentando a maior parte do peso dramático da narrativa. Charles Melton oferece um contraponto mais físico e melancólico. Refn dirige seus atores como peças de uma coreografia visual. Essa opção fortalece o caráter de fábula sombria, embora também contribua para um inevitável distanciamento emocional.

"Her Private Hell" dificilmente converterá quem nunca apreciou o cinema de Nicolas Winding Refn. Trata-se de uma obra radicalmente autoral, fascinada por sua própria iconografia e pouco interessada em concessões narrativas. Ainda assim, mesmo quando tropeça na autocomplacência e transforma seus símbolos em exercícios de estilo, o diretor permanece capaz de criar imagens que poucos cineastas contemporâneos ousariam conceber. O resultado é um filme irregular, mas visualmente hipnótico, que reafirma Refn como um artista disposto a levar sua estética aos limites, mesmo que se perca no caminho.


quinta-feira, 23 de julho de 2026

Kingdom (Królestwo, Polônia, 2025)

"Kingdom", estreia em longa-metragem de Michał Ciechomski, começa em um cenário distópico inquietantemente próximo da realidade contemporânea. Com o mundo à beira de uma guerra, Dawid perde o emprego e planeja deixar o país ao lado da família, enquanto seu irmão mais novo, Jakub, é seduzido por uma organização paramilitar comandada por um líder carismático. Quando Jakub é gravemente ferido, Dawid decide segui-lo até o interior desse universo militarizado, iniciando uma jornada em que sobrevivência, culpa e afeto passam a coexistir. Inspirando-se em experiências pessoais vividas na juventude dentro de grupos de extrema direita, Ciechomski transforma sua estreia num estudo sobre o fascínio exercido pelo autoritarismo e sobre o preço cobrado por essa sedução.

Em vez de construir monstros unidimensionais, o diretor procura compreender os mecanismos emocionais que tornam esses movimentos tão atraentes para jovens inseguros, frustrados e desamparados. A perda do emprego de Dawid simboliza um país em colapso, onde a precariedade econômica abre espaço para discursos nacionalistas e promessas de pertencimento. O "reino" do título não se refere apenas a um território físico, mas a uma ideia de nação construída sobre medo, violência e exclusão.

É justamente dentro desse ambiente profundamente masculino que surge uma das dimensões mais interessantes do longa. Ao ingressar na organização paramilitar, Dawid encontra não apenas uma possibilidade de redenção, mas também o amor. Ciechomski estabelece um contraste provocador entre a rigidez performática da masculinidade militar e a emergência de sentimentos que escapam completamente da lógica fascista. O romance não funciona como mero contraponto sentimental; ele evidencia as contradições de um sistema político que exige virilidade absoluta enquanto produz vínculos afetivos inesperados entre aqueles que compartilham a mesma violência cotidiana.

Essa tensão transforma "Kingdom" em algo mais complexo do que um drama político. A convivência entre desejo homoafetivo e ambientes dominados pelo culto à força aproxima o filme de uma tradição do cinema queer interessada em desmontar os mecanismos da masculinidade autoritária. O fascismo sempre buscou controlar corpos, afetos e sexualidades, e Ciechomski entende que o amor pode surgir justamente onde essa estrutura acredita exercer domínio absoluto.

Ao recorrer às próprias experiências em grupos radicais de juventude, Michał Ciechomski evita tanto o panfleto quanto a romantização da extrema direita. Seu olhar é duro, mas também profundamente autocrítico, sugerindo que nenhuma sociedade está imune ao desejo de construir inimigos e devorar a si mesma. Ao articular política, família e desejo dentro da mesma narrativa, o diretor realiza uma estreia madura, inquietante e surpreendentemente sensível, capaz de dialogar tanto com o cinema político europeu quanto com o cinema queer contemporâneo.


Por Luiz Silva: Retorno para Brokeback Mountain

por Luiz Silva

"O filme dos cowboys gays". Assim como era conhecido "O Segredo de Brokeback Mountain" quando foi lançado e é até hoje por alguns. Estranhamente, o título foi abraçado mesmo com o peso da dubiedade de algo ruim e bom. O romance gay entre dois cowboys obviamente trazia um tom homofóbico característico, mas também agregava negativamente à superficialização da história. Pessoas que reassistem mais de vinte anos depois e fazem suas resenhas no YouTube, pessoas heterossexuais, falam quase de forma unânime, "é o romance entre duas pessoas, duas almas, dois espíritos" como se o fato de haver dois homens retratados de maneira hipermasculinizada não importasse. O lado bom dessa ambiguidade cresce esporadicamente conforme o mundo vai melhorando na medida de um passo para a frente e dois para trás, onde a ideia de representatividade é abraçada de forma comercial dependendo da época. Muito mais fácil do que na época do lançamento. E definitivamente mais fácil que na época que os personagens viviam.  

O conto escrito por Annie Proulx e publicado em 1997 na revista The New Yorker narra em poucas páginas a longa história quase de Romeu & Julieta entre Ennis Del Mar e Jack Twist. Talvez seja até injusto comparar uma história de amor trágica como de Romeu com Julieta com a de Ennis e Jack. O casal italiano tinha aprovação social além do ciclo familiar. Ennis e Jack nunca tiveram a mesma sorte.  

 Durante os anos 60, Ennis e Jack procuram empregos em ranchos e recebem a função de pastorear um rebanho de ovelhas pelos campos da Montanha Brokeback. Lá eles se revezam entre monitoração das mil ovelhas, caçar coiotes e evitar perdas. Isso tudo sozinhos e acampando em pontos diferentes da montanha. Ennis sendo um homem com cenho fechado e poucas palavras, enquanto Jack mais dado ao prazer da conversa e suas intenções para o futuro. Jack quer seguir nos rodeios. Ennis quer se casar com sua noiva, Alma. O cenário inóspito, as personalidades opostas e planos futuros divergentes possibilitavam tudo de inesperadamente violento, não de inesperadamente romântico. Por alguma razão aquelas duas almas vindas de infâncias igualmente trágicas e penosas que resultaram em personalidades diferentes se encontraram num lugar fotográfico que futuramente se tornaria o refúgio deles para o amor mais sincero que teriam em suas vidas. O primeiro sexo totalmente violento e feral para o segundo sem pressa e atencioso mostra como quando não sabemos nos expressar o corpo faz isso involuntariamente pela gente. Em um filme comumente estrelado por um casal hétero isso seria visto como uma paixão fumegante, talvez imperceptível. Mas com um casal homoafetivo na metade do século XX e de vocabulário chucro mostra que desejos não conseguem ser reprimidos para sempre. Talvez seja aí que o público deixa de ver a superfície de dois personagens vestidos da profissão mais masculinizada do fetiche popular e vejam duas almas independentemente de gênero. O trabalho é encerrado mais cedo devido a chegada de uma tempestade mais violenta que a mostrada num momento do filme, quase como um presságio para a turbulência que seria a vida romântica entre eles e o mundo além da montanha Brokeback. Daí para frente temos a passagem de quase duas décadas. Ambos se casam, porém com mulheres. Iniciam suas famílias, variam entre empregos. Ennis casa-se com Alma como planejado e Jack segue nos rodeios até onde pode antes que deixe de andar por causa deles. Eles se encontram esporadicamente talvez três vezes ao ano por duas décadas pelos arredores da montanha Brokeback. Falando sobre suas vidas como confidentes, Ennis aparecendo sorrindo apenas quando está com suas filhas ou com Jack, mas com Jack o sorriso é nitidamente maior e mais feliz e sincero. Talvez se somar o tempo que eles passam juntos durante os anos não dê mais que quinze meses. Diluídos entre promessas e segredos.   

No meio disso tudo estava eu com 12 anos de idade testemunhando tudo através de uma tela. Eu fiquei na dúvida em como escrever este texto. Se sairia como uma resenha ou relato pessoal. Entendi que será a segunda opção. Nessa idade eu já havia me apaixonado por cinema de uma forma diferente das outras crianças e adolescentes. Não apenas um passamento, mas o entendimento de arte como é. Eu já havia entendido que era bissexual e idealizado como seria o amor romântico. Em 2006 não tínhamos fácil acesso a histórias assumidamente queer. Depois de anos entendi que pessoas e histórias LGBTQIAPN+ existiam no cinema desde filmes preto e branco, mas ainda assim, não seriam encontrados nas duas locadoras do centro da minha cidade, e também não seriam recomendados. Talvez o que impulsionou o romance gay entre dois cowboys foi a campanha do Oscar que esse filme fez. Isso talvez fosse o que me assegurava alugar o DVD sem medo, a imagem com a estatueta do Oscar e o texto com suas indicações e vitórias. Eu assumo que alugava o filme várias vezes quando jovem por motivos além dos que eu vejo hoje. Além de excelente roteiro adaptado, fotografia, direção e atuações, temos a beleza e sexualidade autênticas e corajosas de seus protagonistas Heath Ledger e Jake Gyllenhaal. O pouco de nudez me atraia, assim como beijos tão apaixonantes que convenceriam qualquer um que aquilo era um documentário. Entretanto, temos uma daquelas obras que retrata tão bem cenários que consegue representar algo tão bem como um documentário com fatos e pessoas reais. Revendo adulto para escrever este texto havia tanta coisa que aquele Luiz de 12 anos jamais imaginaria viver. Aqueles olhares de soslaio que você dá em algum homem bonito, mas sem despertar atenção para evitar um desentendimento e briga física. Atenção a pequenos gestos. Entender palavras com apenas um olhar. Olhar para os lados para ver se não tem ninguém vendo antes de beijar em público. Não se identificar com um termo como "bicha ou viado". Caminhar para um corredor mais escuro onde COINCIDENTEMENTE há muitos homens e todos próximos, mas sem falar uma palavra sequer. 

Uma experiência que eu tive com esse filme foi antes de reassistir foi com um ex-ficante meu numa situação tão complicado que chamo logo de ex-namorado para evitar uma explicação muito prolixa. Ele não era assumido e queria ter um relacionamento sério comigo, porém eu tive um relacionamento sério com um homem não assumido e não foi uma boa experiência. E não aprendendo o suficiente, futuramente eu teria outro assim que não daria certo. Porém, para esse ex que iniciei o parágrafo eu recomendei "O Segredo de Brokeback Mountain". Porque como falei no encerramento do último parágrafo em experiências adultas que vi neste filme a maior é o risco de não se assumir. Você viver numa mentira constantemente, a sensação de um peso nas costas que não consegue explicar. Tanto que durante o filme e conto (que ouvi por audiobook para confecção deste texto) Ennis fala sobre a sensação de sempre se sentir vigiado. Eu já senti isso e ouvi de outros homens. Eu não desejava isso para aquele ex, então recomendei o filme. Se ele assistiu eu não sei, mas pelo menos ele se assumiu.  

O filme, porém, caiu em um dos estereótipos mais comuns do cinema queer. O final triste. Há toda uma teoria de como isso seria uma punição para personagens LGBT+, todavia, quando se analisa a história como um todo, há sentido o final triste e trágico digno de Romeu & Julieta. A autora diz ter ouvido tantos comentários de ódio ao final que já declarou se arrepender de ter escrito a história.   "Annie, não se arrependa." A autora e elenco comentaram como recebem até hoje mensagens entre lágrimas de pessoas que se viram naquela história, mostrando como "O Segredo de Brokeback Mountain" se mantém relevante com os anos.  

O autor português Ítalo Calvino disse que um clássico é aquele livro que ainda não disse ao que veio. Podemos ver através da coragem e sinceridade com a realidade que temos um futuro clássico. 

 A coragem de demonstrar como uma vida forjada a medos pode ser amargurada é apresentada através de Ennis e com embasamento. Na história, Ennis lembra quando seu pai levou ele e o irmão para ver um corpo mutilado. Era de homem possivelmente gay que era a piada da cidade junto do homem com quem ele morava junto na mesma fazendo mesmo eles sendo estereotipadamente machões. O homem fora atacado com um pé-de-cabra, golpeado com socos e chutes, arrastado pelo pênis até que a genitália se desprendesse do corpo e depois largado em um dique de um córrego. A imagem ficaria gravada na memória de Ennis ao ponto de ser a barreira entre ele e as propostas de Jack, e que também traria um pé-de-cabra como peça fundamental para a tragédia dessa história. Dois dias antes de escrever este texto, um casal de lésbicas que estavam desaparecidas fora encontrado. Mortas e seus cadáveres abandonados na mata. Desculpem se parecer algum tipo de sensacionalismo, longe disso e deixo aqui meus sentimentos aos entes queridos, minhas orações pelas vítimas e meu pedido de justiça. O que não garante que alguma criança fora exposta ao mesmo cenário e vá traumatizá-la como no filme. Arte queer. Pessoas queer existem. Vidas queer existem e importam.  

 Lembram que eu falei sobre a ambiguidade do título "o filme dos cowboys gays" e um lado positivo? Ainda que "O Segredo de Brokeback Mountain" não fora o primeiro filme sobre uma história gay ele foi um dos que foram mais longe. O roteiro levou anos para ser adaptado e aperfeiçoado. O orçamento foi tão lutado quanto a distribuição. Ang Lee, um diretor que obteve grande sucesso com "O Tigre e o Dragão" para depois se traumatizar com o primeiro filme do HULK estava tão frustrado que considerou se aposentar da direção de cinema. O roteiro do romance gay de dois cowboys pareceu o abraço mais motivador possível. Os protagonistas chegaram depois de um longo período de recusas de outros atores. Heath e Jake viram a arte sobre um romance problemático entre duas almas, não apenas dois homens e aceitaram os papéis. Com a liderança de Heath Ledger nenhum escárnio de cunho homofóbico seria permitido ou ouvido sem uma resposta. Logo ele, um galã promissor que conhecera a futura esposa e mãe de sua filha no set de filmagem de um filme de romance gay entre dois cowboys.  

 A atual geração tem muitos recursos para conhecer as obras queer do passado, além de também terem novas. Há uma possibilidade maior de encontrar uma história de amor gay, uma superação, de autodescoberta ou de luta nos serviços de streaming e livrarias. Mas com certeza, aquele filme de despertou curiosidade e piadas, que levou muito tempo para ser feito foi determinante para o que possuímos hoje. Profissionais que possam se assumir, histórias saírem do papel, investimentos serem feitos, novos aliados à comunidade LGBTQIAPN+ se tornaram mais possíveis.  

Fica no imaginário coletivo "E se o Ennis tivesse dado uma chance aos planos de Jack? E se esse filme fosse feito hoje em dia, será que haveria um final feliz ou eles conseguiriam fugir?" Neste meu retorno à Montanha Brokeback eu pude rever muitas coisas em relação à arte do cinema, mas não havia apenas o Luiz cinéfilo. Havia também o Luiz de 32 anos que conversar falar com o Luiz de 12 anos sobre o filme e saber o que ele achou. E entre muitas coisas falar para ele ser forte. Mais forte até os cowboys do filme.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Lucrecia Martel participa de sessão de "Nuestra Tierra" e ministra masterclass gratuita no FID:RIO



Uma das cineastas mais influentes do cinema contemporâneo, a argentina Lucrecia Martel estará no Rio de Janeiro pela primeira vez a trabalho para participar da segunda edição do FID:RIO - Festival Internacional de Artes e Cinema de Não Ficção. A diretora apresenta, em sessão única, seu mais recente documentário, "Nuestra Tierra", no dia 28 de julho, às 20h30, no Estação Claro Rio, em Botafogo. Após a exibição, Martel participa de um bate-papo com o público.

No dia seguinte, 29 de julho, das 16h às 19h, a realizadora conduz uma masterclass gratuita no Teatro Sesc Ginástico, no Centro do Rio. A atividade integra a programação do #LINK:RIO, braço de formação e mercado do festival, e contará com mediação do cineasta Eduardo Valente. Durante o encontro, Martel abordará seu processo criativo e discutirá temas como som, imagem, narrativa e os desafios da realização cinematográfica.

Referência do chamado Novo Cinema Argentino, Lucrecia Martel consolidou uma das filmografias mais importantes das últimas décadas com obras como "La Ciénaga", "La Niña Santa", "La Mujer Sin Cabeza" e "Zama", marcadas por uma linguagem sensorial e por reflexões sobre colonialismo, desigualdade e racismo estrutural.

Seu novo longa documental, "Nuestra Tierra", teve estreia mundial no Festival de Veneza e acompanha o julgamento do assassinato do líder indígena Javier Chocobar, ocorrido em 2009 durante um conflito por terras ancestrais na província argentina de Tucumán. Mais do que reconstruir um caso criminal, o filme investiga as raízes históricas da violência contra os povos originários e os impactos de séculos de colonialismo. A produção foi premiada como Melhor Filme no Festival de Londres e recebeu o Films After Tomorrow no Festival de Locarno.

Realizado entre os dias 24 e 30 de julho, o FID:RIO - Festival Internacional de Artes e Cinema de Não Ficção do Rio de Janeiro chega à sua segunda edição consolidando-se como um dos principais espaços dedicados ao cinema de não ficção no país. Com exibições, encontros e atividades formativas espalhadas por diferentes centros culturais da cidade, o festival reúne cineastas brasileiros e internacionais em uma programação voltada à experimentação audiovisual, além de música e teatro.



Open Endings (Filipinas, 2025)

Nigel Santos parte de um ponto aparentemente caótico para construir um retrato, dos mais honestos das relações afetivas contemporâneas. Em "Open Endings", Charlie (Janella Salvador), Hannah (Jasmine Curtis-Smith), Kit (Klea Pineda) e Mihan (Leanne Mamonong) são quatro mulheres que, em diferentes momentos da vida, foram amantes, namoradas ou casos umas das outras. Hoje permanecem unidas por uma amizade profunda, até que o anúncio do casamento de Hannah faz antigos sentimentos voltarem à superfície. O filme transforma esse delicado equilíbrio emocional em um estudo sobre os vínculos que persistem mesmo quando o amor muda de forma. 

O roteiro rejeita a estrutura convencional da comédia romântica. Em vez de conduzir o espectador para um destino previsível, a narrativa se interessa pelas zonas cinzentas dos afetos, onde amizade, desejo, ciúme e cumplicidade coexistem. Nigel Santos lança o público diretamente no centro dessa dinâmica, confiando que a complexidade dos relacionamentos será compreendida aos poucos. Essa escolha exige atenção, mas recompensa com personagens imperfeitas, contraditórias e profundamente humanas.


O filme desloca o foco das tradicionais histórias de aceitação ou do preconceito institucional para observar o cotidiano de mulheres sáficas adultas, discutindo amizade, família escolhida, relacionamentos passados, novos amores e a dificuldade de estabelecer limites quando o passado permanece vivo. Ainda assim, sem ignorar a realidade, a obra inclui episódios de lesbofobia e diferenças geracionais que atravessam essas experiências, lembrando que essas relações continuam inseridas em uma sociedade marcada por desigualdades. 


"Open Endings" aposta em uma encenação naturalista, sustentada pela fotografia de Martika Ramirez Escobar e por uma câmera que acompanha o grupo com intimidade quase documental. O elenco funciona como um organismo coletivo: Janella Salvador oferece à impulsiva Charlie uma vulnerabilidade constante, enquanto Jasmine Curtis-Smith, Klea Pineda e Leanne Mamonong encontram nuances próprias para personagens que poderiam facilmente cair em arquétipos. 


Mas, a quantidade de relações cruzadas faz com que alguns conflitos recebam menos desenvolvimento do que mereciam, e determinados personagens acabam desaparecendo por longos trechos antes de retornarem à narrativa. Em certos momentos, a ambição de construir um mosaico afetivo tão amplo compromete a profundidade de alguns arcos individuais. 


Mais empenhado em permanências do que em finais felizes, Nigel Santos realiza um filme sensível sobre as formas que o amor assume ao longo do tempo. "Open Endings" compreende que antigos romances podem se transformar em amizade, que o desejo nem sempre desaparece e que crescer significa aprender a conviver com sentimentos contraditórios. É um drama afetivo que encontra força justamente naquilo que costuma escapar às convenções narrativas: a possibilidade de que algumas histórias nunca terminem completamente, apenas mudem de significado.


sábado, 18 de julho de 2026

Tu Nombre en el Papel (Argentina, 2026)

Há filmes que nascem de grandes acontecimentos e outros que transformam pequenos gestos em acontecimentos extraordinários. "Tu Nombre en el Papel", escrito, dirigido e produzido por Nicolás Adriel Iaciancio, pertence ao segundo grupo. A trama segue Lucas (Joaquín Ochoa), um jovem editor literário que encontra, dentro de um livro da biblioteca, um marcador de páginas manuscrito contendo apenas um nome: Mateo. O acaso funciona como ponto de partida para um romance delicado ambientado em Buenos Aires, onde encontros, silêncios e palavras não ditas ganham tanto peso quanto declarações de amor.

O filme compreende que o romance não se constrói apenas através dos acontecimentos, mas sobretudo da espera. Nicolás Adriel filma o desejo como uma sucessão de hesitações: olhares interrompidos, conversas incompletas, cartas imaginárias e sentimentos que parecem sempre chegar alguns segundos atrasados. Buenos Aires participa dessa dinâmica como uma cidade melancólica, feita de livrarias, cafés e ruas tranquilas.

Um elemento fundamental e talvez o maior êxito do filme é a trilha sonora original. O próprio Nicolás Iaciancio assina as composições em parceria com Joaquín Ochoa e Orne Martínez, criando um EP cujas canções prolongam emocionalmente aquilo que o filme sugere. Faixas como "En Tu Mirada" e "Otra Vez" funcionam quase como capítulos paralelos da narrativa, enquanto "Lo Llaman Amor", interpretada por Orne Martínez e o diretor, amplia o alcance afetivo da história. A música traduz sentimentos que os personagens ainda não conseguem verbalizar, reforçando a delicadeza que permeia toda a obra.

Essa delicadeza, contudo, também evidencia algumas limitações. Em determinados momentos, o roteiro parece excessivamente confortável em sua própria contemplação, fazendo com que certos conflitos dramáticos se resolvam de maneira previsível ou permaneçam apenas esboçados. Ainda assim, a sinceridade da encenação impede que o filme se torne artificial. Nicolás Adriel demonstra interesse genuíno pelos sentimentos de seus personagens.

"Tu Nombre en el Papel" é uma declaração de amor às palavras, aos livros e aos encontros que acontecem por acaso. Seu romantismo pode parecer modesto diante de produções mais ambiciosas, mas justamente nessa escala reduzida reside seu encanto. O cineasta realiza um filme de gestos mínimos, onde um marcador de página é capaz de mudar uma vida inteira e onde o amor nasce não das grandes promessas, mas da coragem de finalmente dizer aquilo que permaneceu escrito apenas no papel. 


Sweetheart (Reino Unido, 2025)

Em apenas dezoito minutos, "Sweetheart" demonstra que o cinema queer histórico ainda possui territórios pouco explorados. Dirigido por Luke Wintour e escrito por Alastair Curtis, o curta transporta o espectador para a Londres de 1723, quando Thomas Neville (Eben Figueiredo), surpreendido durante um encontro sexual clandestino, encontra refúgio em uma Molly House,  espaços frequentados por homens gays e pessoas dissidentes de gênero muito antes da consolidação de uma identidade LGBTQIA+ como a entendemos hoje. Em vez de construir um drama sobre perseguição, Wintour prefere revelar um universo subterrâneo de comunidade, afeto e celebração que existia à margem da moralidade oficial.

A clandestinidade não é apresentada apenas como um espaço de medo, mas também de invenção. As Molly Houses surgem como precursoras dos clubes, bares e espaços de acolhimento queer contemporâneos, onde identidades podiam ser experimentadas, nomes reinventados e afetos compartilhados, ainda que sob permanente risco de repressão. O curta compreende que preservar essa memória é também resgatar uma genealogia frequentemente apagada da história LGBTQIA+.

Visualmente, Luke Wintour constrói um trabalho de notável refinamento. A fotografia de Jack Hamilton utiliza velas e luzes difusas para criar uma atmosfera de permanente penumbra, como se cada corredor e cada rosto carregassem simultaneamente perigo e desejo. Há uma sensualidade discreta na maneira como os corpos ocupam o quadro, mais interessada na troca de olhares do que na exposição explícita.

Embora a ameaça da perseguição nunca desapareça, o filme dedica mais tempo às formas de sociabilidade que floresciam apesar dela. A chegada de Thomas àquele espaço transforma seu medo inicial em descoberta, sugerindo que a comunidade sempre existiu, mesmo quando a história insistiu em apagá-la. É um curta que dialoga com estudos recentes sobre as Molly Houses, entendendo esses locais não apenas como pontos de encontro sexual, mas como importantes núcleos de resistência cultural e construção identitária.

Talvez seu único limite seja justamente a duração. Alguns personagens secundários, interpretados por nomes como Kadiff Kirwan e  Ian Gelder, despertam curiosidade suficiente para merecer maior desenvolvimento, e certas relações parecem interrompidas quando começam a ganhar profundidade. 

Mais do que um drama de época, "Sweetheart" funciona como um gesto de recuperação histórica. Luke Wintour ilumina um capítulo frequentemente negligenciado da experiência queer britânica sem abrir mão da beleza cinematográfica nem transformar seus personagens em meros símbolos políticos. O resultado é um curta elegante, delicado e humano, que lembra que muito antes das bandeiras coloridas, das paradas e dos direitos conquistados, já existiam pessoas encontrando maneiras de amar, celebrar e sobreviver nas sombras.


Macho Dancer (Filipinas, 1988)

Em "Macho Dancer",  Lino Brocka funde melodrama popular, thriller urbano e denúncia social. O filme segue Pol (Allan Paule), um jovem do interior que chega a Manila para sustentar a família e acaba sendo introduzido por Noel (Daniel Fernando) ao universo dos dançarinos eróticos e da prostituição masculina. O que poderia facilmente se transformar em um drama moralista é conduzido por Brocka com enorme lucidez: o sexo nunca aparece como desvio, mas como consequência direta de uma estrutura econômica que reduz corpos a mercadorias. 

Embora o título sugira um filme centrado no espetáculo dos corpos masculinos, Brocka está interessado principalmente na engrenagem que os consome. Os números de dança, carregados de sensualidade, coexistem com drogas, corrupção policial,  exploração e violência cotidiana. Manila é filmada como uma cidade onde a sobrevivência exige negociações constantes entre desejo e necessidade. O diretor jamais exotiza aquele universo; ao contrário, revela a prostituição masculina como parte de uma economia informal sustentada pela desigualdade, desmontando qualquer glamour que o cenário noturno possa sugerir. 

O desejo circula entre homens, mulheres e clientes de diferentes perfis como parte da complexidade daquele submundo. Em vez de discutir orientação sexual, o filme investiga como classe, pobreza e poder moldam a experiência dos corpos dissidentes. Há ecos do cinema de Rainer Werner Fassbinder na maneira como erotismo, exploração e afetos se entrelaçam, produzindo personagens incapazes de separar amor, sexo e sobrevivência. 

Brocka filma os clubes noturnos com uma energia quase documental. A câmera desliza entre luzes coloridas, fumaça, suor e coreografias sem nunca perder de vista a humanidade daqueles rapazes. Existe um fascínio evidente pelos corpos em movimento, mas também um olhar profundamente melancólico. O diretor compreende que aqueles palcos oferecem uma rara possibilidade de protagonismo aos dançarinos, ao mesmo tempo em que os tornam vulneráveis à exploração. 

O roteiro por vezes abraça soluções melodramáticas bastante características do cinema filipino da época, acumulando tragédias, traições e reviravoltas. Ainda assim, essas escolhas nunca comprometem a contundência política da narrativa. Ao contrário, reforçam a sensação de que seus personagens vivem presos a um sistema onde qualquer tentativa de ascensão parece condenada ao fracasso. 

Décadas depois de seu lançamento, "Macho Dancer" permanece surpreendentemente moderno. Não apenas por abordar frontalmente prostituição masculina, homoerotismo e desejo, mas porque compreende que a verdadeira violência não está no sexo, e sim nas estruturas que transformam intimidade em mercadoria. Restaurado e finalmente redescoberto por novas gerações, o filme confirma Lino Brocka como um dos grandes cineastas filipinos do século XX. Seu olhar sobre a noite de Manila continua pulsante, sensual e devastador, lembrando que, para muitos daqueles corpos iluminados pelos refletores, dançar era apenas outra forma de continuar vivo.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Heartstopper Para Sempre (Hearstopper Forever, Reino Unido, 2026)

Poucas produções recentes conseguiram acompanhar o amadurecimento de seu público com tanta delicadeza quanto "Heartstopper". Depois de três temporadas, "Heartstopper Para Sempre", dirigido por Wash Westmoreland e escrito por Alice Oseman, baseado em sua graphic novel, encerra a jornada de Nick Nelson (Kit Connor) e Charlie Spring (Joe Locke).  Agora, às vésperas da universidade e diante da perspectiva de um relacionamento à distância, os dois precisam aceitar que crescer também significa conviver com dúvidas, despedidas e mudanças inevitáveis.

Se a série sempre foi marcada pelos grafismos delicados que ilustravam emoções e descobertas, o longa preserva esse recurso, mas o insere em uma proposta visual muito mais cinematográfica. A fotografia, de James Rhodes, aposta em uma luz mais naturalista e sofisticada, enquanto a narrativa dividida pelas quatro estações do ano transforma primavera, verão, outono e inverno em estados emocionais. Cada capítulo reflete inseguranças, autoconfiança, desejos e o medo do futuro, numa construção elegante que acompanha a passagem definitiva da adolescência para a vida adulta.

Alice Oseman desloca o centro dramático da relação. Depois de acompanhar a recuperação de Charlie ao longo das temporadas, é Nick quem passa a enfrentar suas próprias angústias diante da separação iminente e das responsabilidades da vida universitária. O filme compreende que o amadurecimento nunca acontece de maneira linear: quando um encontra estabilidade, o outro vacila. As cenas de intimidade entre os dois também evoluem com naturalidade, incorporando sexo, pele e desejo com enorme ternura, sem abandonar a doçura que sempre definiu a franquia.

Embora Nick e Charlie permaneçam como eixo central, o roteiro encontra espaço para que os demais personagens tenham seus próprios momentos. Charlie cria um ambiente de acolhimento para estudantes LGBTQIA+ dentro da escola, reforçando que a luta contra a homofobia institucional continua sendo necessária mesmo em espaços aparentemente seguros. Durante um breve afastamento do casal, Elle, Tao, Tara, Darcy, Isaac e os demais voltam a respirar individualmente, enquanto a narrativa ainda encontra espaço para abordar direitos das pessoas trans e incluir uma Parada do Orgulho. É pouco para um elenco tão querido, mas suficiente para lembrar que "Heartstopper" sempre foi também uma história sobre comunidade e amizade.

A trilha sonora segue em pleno diálogo com a franquia. Nomes como Sufjan Stevens, Billie Eilish, Maggie Rogers, The National, Baby Queen, Royel Otis, Middle Kids, Orla Gartland e Gigi Perez os personagens sem jamais soar como uma playlist montada apenas para agradar algoritmos. Há ainda um simpático gesto metalinguístico quando os amigos assistem a "Colette",do próprio Wash Westmoreland, além da inevitável estranheza causada pela substituição de Olivia Colman por Anna Maxwell Martin no papel de Sarah Nelson.

"Heartstopper Para Sempre" entende que seu maior desafio não era surpreender, mas concluir uma história que acompanhou toda uma geração de jovens LGBTQIA+. O filme reconhece que o primeiro amor pode sobreviver ao tempo, desde que aceite também a transformação. Mais maduro, visualmente mais refinado e emocionalmente mais complexo, o encerramento entrega exatamente o que promete: uma despedida afetuosa para personagens que cresceram diante do público e deixaram uma marca definitiva na representação queer contemporânea, sem perder a esperança que sempre fez de "Heartstopper" um fenômeno tão necessário.


quinta-feira, 16 de julho de 2026

A Divina Sarah Bernhardt(Sarah Bernhardt, La Divine, França, 2024)

 Poucas artistas moldaram a ideia moderna de celebridade como Sarah Bernhardt. Antes mesmo da invenção do cinema como linguagem consolidada, a atriz francesa já compreendia o poder da própria imagem, da autopromoção e do escândalo. Em "A Divina Sarah Bernhardt", Guillaume Nicloux evita o caminho do biopic cronológico para construir um retrato fragmentado dessa mulher extraordinária, interpretada por uma magnética Sandrine Kiberlain. A narrativa percorre diferentes momentos da vida da atriz, tendo como eixo sua intensa relação com o ator Lucien Guitry (Laurent Lafitte), sem deixar de revelar outras paixões, amizades e rivalidades que ajudaram a transformar Bernhardt em uma figura quase mitológica.

O filme compreende que Sarah Bernhardt jamais caberia numa narrativa convencional. Nicloux prefere trabalhar por associações, memórias e episódios que, juntos, compõem o retrato de uma personalidade maior que a própria vida. A estrutura fragmentada acompanha uma mulher que parecia existir permanentemente em cena, incapaz de separar completamente arte e existência.


É nesse ponto que o aspecto queer da obra ganha relevância. Mais do que registrar a bissexualidade de Sarah Bernhardt como uma curiosidade biográfica, o filme a insere dentro de um projeto muito maior de liberdade. Sua relação com a pintora Louise Abbéma (Amira Casar) aparece como resultado de uma vida conduzida pelo desejo e pela recusa das convenções sociais. O romance ocupa menos espaço que a relação turbulenta com Lucien Guitry, mas reforça uma característica essencial da protagonista: sua recusa em aceitar limites impostos ao corpo feminino.

Mas as limitações estão justamente na natureza episódica do roteiro. Algumas passagens surgem e desaparecem antes de alcançar verdadeiro desenvolvimento dramático, enquanto personagens históricos, como Alexandre Dumas e Sigmund Freud, entram em cena apenas para reforçar o status lendário da protagonista. Em determinados momentos, a impressão é de assistir a uma sucessão de quadros sobre Sarah Bernhardt, mais interessados em preservar seu magnetismo do que em investigar suas contradições.

Mais do que celebrar uma atriz, "A Divina Sarah Bernhardt" celebra uma mulher que viveu décadas à frente de seu tempo. Sua independência artística, sua liberdade sexual, sua capacidade de desafiar normas sociais e transformar a própria vida em performance fazem dela uma figura cuja modernidade continua surpreendente mais de um século depois.