segunda-feira, 5 de outubro de 2026

FESTIVAL DO RIO 2026: FUNK

“Funk” de Aly Muritiba, acompanha os passos e a ascensão de MC Sabrina (interpretada por Duda Santos), uma jovem artista queer criada no Morro dos Prazeres, em Santa Teresa (Rio de Janeiro), que busca conquistar seu espaço no competitivo circuito dos bailes de favela e na indústria musical.A trama explora a fundo os desafios enfrentados pela protagonista na busca por autonomia de sua música, de seu corpo e de sua identidade

Funk (Brasil, 2026)
por Egídio La Pasta

Quero dizer antes de tudo que a Duda Santos merece todos os prêmios por essa performance. MC Sabrina entende o funk como uma forma visceral de expressão, como mulher, como alguém que é livre e dona de si, irredutível na forma como deseja ser tratada, exigindo mais do que reconhecimento, oportunidade. É uma mulher que saboreia a juventude, a possibilidade, a beleza, o talento e a obstinação de melhorar de vida através da sua arte.

Quando a roda gira e ela atinge o ápice da carreira, uma corrida de obstáculos que questionam sua identidade, balança a estrutura, onde novos dilemas sacodem sua nova realidade: o preço de chegar ao topo vale a perda daquilo que a tornou autêntica? A nova vitrine exige que ela se despoje de suas origens, amacie seu discurso e esterilize sua imagem para caber nos padrões industriais. E aí, qual vai ser?


Eu gosto tanto do Aly Muritiba. A fotografia do Inti Briones é linda não só no recorte do Rio de Janeiro, mas nos bailes e sobretudo no grupo de atrizes e atores. Duda Santos, o pilar, a alma da porra toda, a marra em forma de dedo na cara, a delicadeza de quem entende a engrenagem, mas a ferocidade de quem sabe o que quer. É um negócio de louco o que ela faz aqui.


FESTIVAL DO RIO 2026: LA BOLA NEGRA

La Bola Negra(Espanha/França, 2026) por Egídio La Pasta

Há em mim, desde os anos 1990, um pesar profundo sobre o tanto de vidas perdidas pela AIDS. Provavelmente porque foi a epidemia mais violenta que eu presenciei no início da minha vida jovem, já me compreendendo um cara viado, o Tom Hanks definhando tomando vinho e ouvindo ópera, ganhando um oscar e milhares de pessoas morrendo, tendo suas vidas interrompidas. Gerações de atores, escritores, artistas de inúmeras áreas, cujas contribuições poderiam ser expressivas, plurais, inclusivas para o avanço e a permanência da cultura queer. Eu lamento tanto esse lapso, esse apagar de homens e mulheres, vozes, corpos, ideias, poesia. É importante repetir: a poesia.


Aqui, uma epopeia. Literal, esse abraço na palavra escrita, nos grandes feitos heroicos através da história, que insiste em erradicar, enterrar e assassinar a coragem. Existe um peso incomensurável nas coisas que o tempo decide deixar inacabadas. Eis uma tentativa de ecoar e honrar a continuidade dos afetos. Herdar a luta de gerações, muitas delas apagadas porque o amor entre homens era um ato de resistência quase suicida, se não houvesse cuidado e silêncio.


A narrativa se divide e se conecta através de três momentos cruciais da história espanhola, acompanhando personagens cujos destinos ecoam uns nos outros. E é delicioso quando os encaixes começam a dar forma e sentido às conexões, que começam 1932, 1937 (durante a Guerra Civil Espanhola) e 2017.

Em 1932, o filme captura a fragilidade de uma juventude que ousa sonhar em meio a estruturas sociais rígidas e castradoras, simbolizadas pela metáfora de uma votação secreta que dá nome à obra, onde bastava um único voto com a bola preta para banir a existência de alguém dentro daquele grupo. Anos mais tarde, em 1937, o cenário se corrói pelo fogo cruzado da Guerra Civil, transformando radicalmente a vida de Sebastián, onde o filme lindamente começa. Em 2017, essas histórias retornam, como uma herança familiar que liga os fios, que reconecta e acende todas as luzes sobre o passado. Sobre o amor. Sobre homens que amavam homens, apesar da guerra, dos destroços, dos horrores e corpos empilhados, do desespero e da falta de compreensão do mundo com as diferenças. Sempre houve uma brecha para o amor. Apesar do mundo.


É linda demais essa ideia da poesia como herança. Como algo que se resgata para que sobreviva ao tempo, para que não nos deixe esquecer do passado, de todos que vieram antes e lutaram e tentaram resistir aos absurdos do fascismo, autoritarismo, delírios de poder. É linda demais a ideia de exumar essas histórias, na tentativa de espelhar o passado nos dias de hoje. Ou o contrário. De conectar o tempo através do desenho do desejo homoafetivo através da palavra. De um papelzinho dobrado no bolso, escrito por um homem apaixonado. Por outro homem, desdobrando esse mesmo papel e encontrando, pela primeira vez na vida, um poema escrito para ele, sobre eles.

Você já se viu diante de palavras que mudaram a sua vida? Que romperam a barreira dos olhos e entraram na circulação e reviraram os sentidos, questionaram os significados, que sopraram a estrutura, que um milhão de coisas minhas que você jamais vai saber, que um milhão de coisas suas que eu jamais vou imaginar?

Lorca ficaria feliz, acho. Eu fiquei.

domingo, 4 de outubro de 2026

Elefantes na Névoa (Tinīharū, Nepal/Alemanha/Brasil/França/Noruega, 2026)

Em “Elefantes na Névoa”, Abinash Bikram Shah nos leva a um pequena comunidade rural do Nepal, um território de suspense, desejo e pertencimento. À noite, os moradores de uma vila cercada por uma floresta patrulham o entorno para afastar elefantes selvagens que ameaçam plantações e casas. Entre eles está Pirati (Pushpa Thing Lama), matriarca de uma comunidade Kinnar formada por mulheres trans que construíram entre si uma família baseada em laços escolhidos. Pirati, porém, sonha em abandonar aquela estrutura para viver com o homem que ama. O desejo de uma vida “normal” entra em choque com a responsabilidade de cuidar das mulheres que dependem dela quando Apsara (Aliz Ghimire), sua filha mais jovem, desaparece durante uma dessas rondas. O que começa como uma história de desaparecimento rapidamente se transforma em uma investigação sobre família, preconceito e as diferentes formas de abandono.

O filme não faz da comunidade Kinnar  um simples símbolo de resistência. Shah permite que suas integrantes tenham desejos contraditórios, briguem, façam sexo, se divirtam, cometam erros e também reproduzam hierarquias que as próprias personagens questionam. A família escolhida é, ao mesmo tempo, abrigo e estrutura de controle. Pirati exerce autoridade sobre suas “filhas”, mas também está submetida às tradições e expectativas de uma comunidade que encontrou maneiras próprias de sobreviver à exclusão. 


Pirati não está simplesmente lutando contra uma sociedade transfóbica, embora a violência externa seja uma presença constante. Ela também precisa negociar com as regras de sua própria comunidade e com a expectativa de que uma matriarca coloque sempre o coletivo acima de seus desejos individuais. Seu romance com o Mestre dos Tambores introduz uma possibilidade desconcertante: e se ela quiser deixar de ser a pessoa que cuida de todo mundo para cuidar de si mesma? 

A investigação pelo desaparecimento também serve para desmontar a aparente segurança da comunidade. Pirati precisa atravessar espaços onde as mulheres Kinnar são toleradas quando suas habilidades espirituais interessam aos moradores, mas marginalizadas quando deixam de ocupar o papel que lhes foi atribuído. A busca por Apsara expõe esse mecanismo de exclusão e faz com que o filme questione quem tem direito de ser considerado parte de uma comunidade. Ao mesmo tempo, Shah evita apresentar suas protagonistas como figuras puramente virtuosas. Existe conflito dentro da própria casa, e é essa imperfeição que torna a família escolhida mais convincente.

O filme encontra uma relação poderosa entre a névoa, a floresta e os corpos que tenta tornar visíveis. A fotografia de Noé Bach trabalha com uma paleta fria e desaturada, enquanto os planos abertos frequentemente diminuem Pirati e as outras mulheres diante da imensidão da floresta. À noite, tochas, fogos de artifício e sombras transformam as patrulhas contra os elefantes em uma espécie de ritual. A própria narrativa muda gradualmente de registro, passando de um retrato comunitário mais caloroso para um suspense noturno cada vez mais angustiante.

E há ainda Pushpa Thing Lama, cuja presença dá ao filme uma força extraordinária. Ativista Kinnar e estreante como atriz, ela interpreta Pirati sem transformar a personagem em monumento. Seu rosto concentra desejo, culpa, autoridade, medo e uma espécie de cansaço acumulado. A performance é particularmente forte porque Pirati nunca parece completamente certa sobre aquilo que deve fazer. Ela quer partir, mas procura Apsara. Quer amar, mas precisa liderar. Quer uma vida própria, mas também sabe que aquelas mulheres são sua família. “Elefantes na Névoa” poderia ter usado a história para oferecer respostas óbvias sobre identidade e pertencimento, mas prefere permanecer na contradição. Até os elefantes do título carregam essa ambiguidade: são temidos quando atravessam os limites impostos pelos humanos, embora tenham sido os humanos que invadiram seu território.


sábado, 3 de outubro de 2026

FESTIVAL DO RIO 2026: THE EDUCATION OF JANE CUMMING, A LONG WINTER, JIM QUEEN

 

por Egídio La Pasta The Education of Jane Cumming (Reino Unido/Alemanha/Suíça, 2026)

É um filme que expõe não só a homofobia que as professoras sofrem. Mas o racismo por Jane ser indiana. Sua avó não a suporta e a escola funciona como uma forma de fazer com que ela suma de vista.


1810 e a educação para as mulheres era questionada. Por que elas precisam aprender sobre borboletas? Um casal homoafetivo era tratado como algo sobrenatural. Após o julgamento, o caso foi tratado como segredo de justiça e ganhou um sigilo de cem anos.

Tem um lance bacana na atmosfera, que é o isolamento. A escola é distante. A casa é imensa. Elas parecem estar num universo à parte, onde vivem de acordo com as próprias regras, mesmo dentro de uma sociedade machista.


As atrizes estão muito bem, são temperamentos e personalidades muito distintas entre as protagonistas. As crianças criam uma unidade interessante e Fiona Shaw dá uma roubada de cena todo momento em que aparece.

A Long Winter (Reino Unido/Canadá, 2026)

Fazendo as pazes com o Haigh aqui, seu filme anterior, "Todos Nós Desconhecidos", é um filme que não aconteceu em nenhuma esfera comigo. Mas ele é um cara que sabe dissecar silêncios, dentro e ao redor das relações frágeis.

Adaptado do conto de Colm Tóibín, ele nos leva para o isolamento das montanhas rochosas nos anos 1950 para contar uma história onde o clima gélido de fora é só um reflexo do que os personagens carregam no peito. E é bem simples na dinâmica, dois irmãos, jovens adultos, pensando em sair de casa, uma cabana no meio da montanha e ir tentar a vida. E seus pais, a mãe (Caitríona Balfe maravilhosa), sufocada pelo lugar, pela rotina, pela vida e o pai (Ebon Moss-Bachrach, que também está em "The Man I Love"), um cara que construiu essa vida nesse lugar, sem ambição alguma sobre mudar o cenário, sem ser exatamente um brutamontes, mas que compreende seu machismo de maneira rotineira, natural.

Quando o mais novo (Kit Connor, olar) vai embora, o mais velho se encontra diante da herança da expectativa que o pai deposita sobre ele e a compreensão do sofrimento da mãe diante de uma vida toda construída através da aparência. Mike (Fred Hechinger) é um cara sensível, começando a entender seus desejos, de maneira muito sutil. Sua sexualidade é usada como um elemento da personalidade, embora sugerida em momentos específicos, não se sobrepõe a outros traços que também o definem.

A fotografia é um elemento importante, a imensidão sufocante das montanhas com a clausura daquela cabana isolada de tudo. E a investigação sobre dores profundas, luto e as expectativas sufocantes colocadas sobre os homens e mulheres daquela época. É um belo filme.


Jim Queen (França/Bélgica, 2026)

O traço é o máximo. E a velocidade das piadas também.

Imagine um cenário onde a única pandemia que importa não fecha comércios, mas ameaça extinguir o coração pulsante da comunidade queer de Paris. É com essa premissa absurda e deliciosamente provocativa que Jim Queen nos joga de cabeça no caos.

Cores vibrantes, referências pop de três em três minutos e um humor ácido. A história acompanha Jim, um influenciador narcisista e "rainha" incontestável da noite parisiense, que vê seu império desmoronar da noite para o dia por causa do Heterotopzis — um vírus misterioso que converte homens gays em héteros atordoados

O que poderia ser apenas uma piada de uma nota só, ganha fôlego graças ao roteiro esperto e a dinâmica improvável entre Jim e Lucien, um twink recém-assumido que embarca nessa jornada frenética em busca de uma cura.

A relação dos dois funciona como o coração do filme e por trás de todo o deboche, das críticas afiadas ao culto, fama nas redes sociais e da sátira aos modismos da militância contemporânea, existe uma discussão ali sobre pertencimento, ego e o medo de perder a própria identidade.

Rir de si mesmo é sempre um caminho que abre a estrada, desde sempre eu penso dessa forma. E no meio da loucura toda, é um filme sobre o afeto, o que deixa tudo muito mais interessante e divertido.

Eu tava um pano de chão no início da sessão de meia-noite, achei que não ia dar conta e dormir, mas ele é ágil, rápido, sem tempo morto e muito animado.

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

COBERTURA FESTIVAL DO RIO 2026: THE MAN I LOVE

 

Ambientado na vibrante e dolorosa Nova York do final dos anos 1980, “The Man I Love”, de Ira Sachs, com roteiro de Maurício Zacharias, acompanha Jimmy George (Rami Malek), um icônico artista e ator de teatro. Após ser diagnosticado com AIDS, ele lida com a iminência da morte enquanto tenta realizar um último grande papel no palco e vivenciar o amor intensamente. O filme explora um triângulo amoroso entre Jimmy, seu carinhoso namorado Dennis, e Vincent, um jovem vizinho britânico.

The Man I Love (EUA/França, 2026)
por Egídio La Pasta

Acho que o pior do filme está no Rami Malek. Não entendo como um diretor como o Sachs não conseguiu controlar as caras e bocas e olhinhos virados. É muita afetação.


Dito isso, é um recorte de um momento muito dramático. Ele, inclusive, evita o drama e mergulha num estudo sobre esse ator de teatro e seu processo atropelado pela doença. E nem sempre funciona porque todo o entorno das suas relações parecem muito mais interessantes e relevantes do que os bastidores de um espetáculo de teatro.

Boa direção de arte e figurinos. E o clima e a atmosfera da época, dos signos gays e dos corpos e a vida dentro e fora das boates, colidindo nas relações familiares e amorosas diante da ruptura, tudo isso me parece um material espetacular para o filme que eu não encontrei.

Esse protagonista, esse ator famoso, desejado, reconhecido, ávido por atenção, ele é uma síntese bastante precisa de alguém que se utiliza do outro, independentemente se pode ou não machucá-los. Deixar marcas. Ele esbarra nesse retrato de homens irresistíveis, que se acham muito melhores do que são e compreendem o amor de forma muito equivocada.

Aqui o filme acerta muito na representação de um tipo facilmente reconhecível, acredito, por muitos de nós. Só não precisava de tanto biquinho e pescocinho virado. Queria muito mais Tom Sturridge, um tremendo coadjuvante.


Iván & Hadoum (Espanha/Alemanha/Bélgica, 2026)


Em “Iván & Hadoum”, Ian de la Rosa transforma os enormes campos de tomate na Almería em cenário para uma história de amor que nunca consegue existir completamente separada das estruturas ao redor. Iván (Silver Chicón) é um homem trans que trabalha como operador de empilhadeira em uma estufa e está prestes a receber uma promoção que representa não apenas uma conquista pessoal, mas também a possibilidade de melhorar a vida de sua família. Quando Hadoum (Herminia Loh), uma trabalhadora de origem hispano-marroquina, chega à empresa, os dois retomam uma conexão que vem da adolescência, antes da transição de Iván. O romance nasce de maneira espontânea, entre conversas, trabalho e encontros à beira-mar, mas rapidamente evolui para um conflito sobre aquilo que cada um está disposto a sacrificar para sobreviver.

O interessante é que De la Rosa recusa a ideia de que a experiência trans de Iván precise ser apresentada. O personagem já atravessou o processo de aceitação e vive sua identidade com naturalidade, cercado por uma família que o reconhece e o apoia. A questão não é fazer Iván provar quem é, mas descobrir quem deseja ser quando uma oportunidade de ascensão profissional o coloca do outro lado de uma estrutura que começa a prejudicar justamente as pessoas com quem ele trabalha. 


Hadoum não existe apenas como interesse amoroso de Iván. Ela é uma personagem com desejos e posições próprias, e sua experiência como mulher de origem marroquina dentro de uma empresa marcada pela precariedade faz com que a relação entre os dois seja atravessada por uma diferença política cada vez maior. Enquanto Iván enxerga na promoção uma oportunidade de construir uma vida mais confortável, Hadoum começa a organizar as trabalhadoras da empresa diante da ameaça de perda de empregos e das condições precárias de trabalho. O romance passa então a carregar uma contradição bastante concreta: amar alguém também significa reconhecer aquilo que essa pessoa está fazendo dentro de uma estrutura que afeta você. 


Essa tensão é ainda mais forte porque o espaço de Almería funciona quase como um personagem. As estufas ocupam uma extensão gigantesca da paisagem e criam uma imagem paradoxal: de longe, parecem um mar branco e brilhante; por dentro, são locais de trabalho submetidos a regras, hierarquias e pressões econômicas. A fotografia de Beatriz Sastre explora o contraste entre essa paisagem ensolarada e os espaços industriais onde os personagens passam grande parte do dia. 

Há também uma delicadeza particular na maneira como De la Rosa filma o desejo. O romance não precisa ser anunciado como acontecimento extraordinário. Ele aparece no modo como os dois conversam, na intimidade construída pouco a pouco e em cenas de sexo que não são tratadas como prova de transgressão, mas como parte natural da relação. A preparação de dois meses com Silver Chicón e Herminia Loh antes das filmagens parece ter sido fundamental para essa sensação de espontaneidade. As atuações são contidas, e o filme evita transformar cada conflito em uma grande explosão melodramática. 

Ganhador do Teddy no último Festival de Berlim, “Iván & Hadoum faz uma escalada íntima. De la Rosa não precisa transformar Iván em símbolo nem Hadoum em porta-voz de uma causa. O conflito nasce de uma escolha concreta e dolorosa: aceitar uma posição dentro da empresa significa aproximar-se de uma vida que Iván deseja, mas também pode significar afastar-se de quem ama e das pessoas que dependem de seu trabalho. O filme encontra nessa contradição uma ideia bastante potente sobre a experiência queer contemporânea: identidade não existe isoladamente das condições materiais. No meio das estufas de Almería, entre o amor, o desejo, o trabalho e a possibilidade de ascensão, Iván precisa decidir não apenas com quem quer ficar, mas que tipo de homem quer ser.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

​Jaripeo (México/EUA/França, 2026)

“Em “Jaripeo”, Efraín Mojica e Rebecca Zweig entram em uma das expressões mais emblemáticas da masculinidade rural mexicana para procurar aquilo que normalmente permanece fora do enquadramento. Em Penjamillo, Michoacán, o jaripeo reúne, durante o Natal, moradores locais e migrantes que retornam dos Estados Unidos para celebrar uma tradição marcada por cavalos, touros, bebida, competição e códigos de masculinidade. Mas o documentário percebe que, por trás dessa performance de virilidade, existe outra linguagem. Um olhar demorado, uma mão que toca outra, encontros escondidos no mato e vidas mantidas parcialmente em segredo revelam uma comunidade queer que não está necessariamente do lado de fora daquela tradição. Ela existe dentro dela.

Efraín não chega ao jaripeo como um observador completamente externo. Nascido em Michoacán e  crescido entre Penjamillo e Riverside, na Califórnia, o cineasta retorna a um território que também pertence à sua memória. O filme se transforma, então, em uma espécie de investigação sobre a própria formação, aproximando o desejo queer das lembranças de um lugar que ficou para trás. Noé, um cowboy bonito e extremamente associado à imagem do homem machão, vive sua sexualidade de maneira parcialmente aberta, enquanto Joseph ocupa uma posição quase oposta, exuberante, performática e querido pela comunidade. 

O machismo existe, evidentemente, mas a masculinidade do rodeio também é uma performance, e o filme percebe algo de homoerótico na própria maneira como esses homens exibem seus corpos, suas roupas, sua força e sua habilidade diante de outros homens. A arena deixa de ser apenas um espaço de afirmação heterossexual para se tornar um território muito mais ambíguo.

A forma do filme acompanha essa investigação. Em vez de apostar exclusivamente no registro documental tradicional, Mojica e Zweig misturam imagens em Super-8, cenas estilizadas, memória encenada e observação direta. Essa combinação faz com que o jaripeo pareça menos um evento específico e mais uma lembrança que continua sendo reconstruída. A textura granulada das imagens reforça a sensação de memória, enquanto os momentos de observação aproximam a câmera dos corpos e dos gestos cotidianos.

“Jaripeo” não sustenta a ideia de que a única saída possível para uma pessoa LGBTQIA+ seja abandonar sua comunidade e procurar uma vida completamente diferente em uma grande cidade. Noé continua ligado àquela cultura, Joseph é uma figura pública dentro dela, e o próprio Efraín retorna ao lugar de onde veio para tentar compreender o que aquela masculinidade significou em sua formação. O filme entende que pertencimento pode ser contraditório. É possível amar uma tradição e, ao mesmo tempo, questionar os códigos que ela impõe. 

“Jaripeo” poderia ter feito do rodeio apenas um cenário exótico para revelar uma suposta vida queer clandestina, mas sua proposta é mais interessante: mostrar que essas duas coisas nunca estiveram realmente separadas. O desejo não aparece como uma invasão de fora, ele sempre esteve circulando entre a poeira da arena, os corpos dos vaqueiros, as festas de Natal e os retornos de quem vive longe. Talvez por isso o filme seja mais bonito quando observa do que quando explica.


COBERTURA FESTIVAL DO RIO 2026: JARIPEO

Quem disse que não ia rolar cobertura do Festival do Rio? O querido leitor, e seguidor, Egídio La Pasta vai trazer pílulas dos BABADOS MAIS FORTES do evento, que começa hoje na Cidade Maravilhosa. E pra iniciar tem “Jaripeo”, de Efraín Mojica e Rebecca Zweig. O filme oferece uma perspectiva íntima e queer sobre o universo hipermasculino e tradicional dos rodeios mexicanos, misturando a cultura de vaqueiros com memórias, desejos e busca por identidade. Na arena de montaria, em Michoacán, regada a tequila, o cineasta cruza caminhos com dois cowboys gays da comunidade local

​Jaripeo (México/EUA/França, 2026)

por Egídio La Pasta

​Jaripeo resgata a beleza complexa de quem navega entre a rigidez das tradições e a liberdade do desejo reprimido. E aí dá um nó porque não há liberdade na repressão. A poeira, o suor e a crueza da arena fundem-se com a vulnerabilidade de memórias afetivas, sombreados pela solidão da impossibilidade.  

​Eu gosto, porque parece corajoso. E esses caras estão soterrados de símbolos, abrindo frestas para uma subcultura queer silenciosa, distante, idealizada. É bonito o registro, mas eles vão continuar nesse círculo, atados a um universo onde eles sempre vão ser lembrados, na menor e na maior observação, de que eles não fazem parte do cenário. A beleza é que eles fazem. Mas o preço é cruel demais.  


Lorca en La Habana (Espanha/Cuba, 2025)

Existe uma imagem de Federico García Lorca que foi construída inevitavelmente a partir de seu fim. O poeta assassinado pela violência franquista, transformado em símbolo da repressão e da tragédia espanhola, muitas vezes acaba aprisionado naquilo que aconteceu depois de sua vida. “Lorca en La Habana”, dirigido por José Antonio Torres e Antonio Manuel Rodríguez Ramos, escolhe olhar para o caminho contrário. O documentário recupera os 89 dias que Lorca passou em Cuba, em 1930, depois de chegar de Nova York, e encontra naquele período um homem particularmente vivo, curioso e feliz. Mais do que acrescentar uma nota biográfica à trajetória do escritor, o filme tenta devolver movimento a uma figura que a memória cultural congelou e que volta agora às rodas de conversa com a proximidade de "La Bola Negra".

A estrutura escolhida pelos diretores é um tríptico que mistura documentário, teatro, entrevistas ficcionalizadas, depoimentos de especialistas, imagens de arquivo e música. Uma das linhas acompanha uma representação da última noite de Lorca em Madri antes da viagem definitiva para Granada; outra recria, por meio de personagens interpretados, figuras que conviveram com o poeta em Cuba, como Nicolás Guillén, Lydia Cabrera e outros intelectuais; a terceira acompanha pesquisadores e escritores cubanos que investigam sua passagem pela ilha.

Lorca não aparece apenas como um espanhol que chegou a Cuba e deixou algumas marcas. O filme insiste na ideia de que Cuba também modificou profundamente o poeta. O contato com a música negra, o son, a vida cultural da ilha e um ambiente que lhe parecia mais luminoso e permissivo interferiram em sua produção artística. Foi durante essa estadia que escreveu, entre outros textos, “Son de negros en Cuba”, e a própria produção do documentário recupera a permanência de sua influência na música, no teatro, na poesia e na narrativa cubanas.

Ainda que o documentário não transforme a sexualidade de Lorca, o filme recupera o artista feliz, desejante e livre, o que também significa recuperar um homem homossexual cuja vida foi atravessada por uma sociedade que não lhe oferecia liberdade plena. Cuba surge, nessa perspectiva, como um intervalo de respiração entre diferentes formas de repressão. 

Essa liberdade também está na própria imagem do filme. A fotografia de Manuel C. Santos, Marcelo Ripado e Hazeina Rodríguez trabalha com luz, cor e movimento, enquanto a montagem de Hazeina Rodríguez aproxima registros documentais. A música tem papel decisivo nessa construção, especialmente a “Habanera de la Máscara”, composta por Jesús Bienvenido e Roko em colaboração com Antonio Manuel. O documentário entende que falar de Lorca em Cuba exige ouvir Cuba, e é nesse momento que sua pesquisa histórica deixa de ser simplesmente ilustrativa para ganhar uma dimensão sensorial.


“Lorca en La Habana” quer lembrar que antes do assassinato existiu um homem que viajou, desejou, escreveu, se encantou e encontrou em uma ilha distante uma espécie de segunda Andaluzia. Essa escolha também explica o caráter afetivo do documentário, que às vezes se aproxima mais da celebração do que da investigação crítica, mas encontra coerência nessa proposta de recuperar uma felicidade que a história posterior quase apagou. Lorca não deixa Cuba apenas como poeta espanhol que passou por ali: permanece como presença cultural, artística e queer, incorporada a uma memória cubana que continua reinventando sua obra.


terça-feira, 29 de setembro de 2026

Bearcave (Arkoudotrypa, Grécia/Reino Unido, 2025 )

 Em “Bearcave”, Stergios Dinopoulos e Krysianna B. Papadakis transformam uma pequena vila nas montanhas gregas em um território onde desejo, amizade e tradição entram constantemente em conflito. Argyro (Chara Kyriazi) é uma jovem fazendeira ligada à terra e aos animais, enquanto Anneta (Pamela Oikonomaki), sua melhor amiga desde a infância, trabalha como manicure e sonha com uma vida diferente. Quando Anneta revela que está grávida e pretende deixar a vila com o namorado policial, Argyro percebe que pode estar prestes a perder muito mais do que uma amiga. O longa é a expansão do curta homônimo de 2023, realizado pelos mesmos diretores, e transforma aquela história em uma espécie de conto rural sobre aquilo que permanece escondido até mesmo para quem sente.

O mais bonito em “Bearcave” é a maneira como o filme demora a transformar amizade em romance. Existe uma intimidade entre Argyro e Anneta que está nos olhares, nos silêncios, na proximidade dos corpos e principalmente na dificuldade de dizer aquilo que está evidente. A gravidez de Anneta e sua decisão de partir funcionam como uma ruptura, mas também como aquilo que finalmente obriga as duas a confrontarem uma relação que talvez nunca tenha sido apenas amizade. 


A vila de Tirna é fundamental para essa leitura porque não funciona apenas como cenário. É uma comunidade em que todo mundo conhece a vida de todo mundo, os papéis de gênero parecem previamente distribuídos e qualquer desvio da "norma" pode adquirir uma dimensão coletiva. Argyro já ocupa uma posição pouco convencional ao assumir o trabalho de fazendeira, enquanto Anneta parece inicialmente mais adaptada às expectativas sociais que a cercam. A chegada da gravidez reforça esse caminho aparentemente determinado: namorado, casamento, cidade maior, família. O filme, porém, começa a desmontar essa trajetória quando Anneta percebe que aquilo que deveria representar seu futuro talvez seja apenas outra forma de aprisionamento. 


E então existe a caverna. A busca pela Bearcave, proposta por Argyro antes que Anneta vá embora, funciona como aventura, lenda e passagem para um espaço onde as regras da vila parecem perder força. A imagem é deliberadamente carregada de mistério, e a própria caverna nunca precisa ser totalmente explicada para adquirir importância. Em uma leitura mais simbólica, ela pode representar um lugar de desejo, medo e transformação, um espaço subterrâneo onde aquilo que não consegue existir à luz do dia encontra outra possibilidade. 


 “Bearcave” poderia  seguir o caminho do melodrama sobre duas mulheres que não conseguem viver seu desejo em uma comunidade conservadora, mas escolhe outra direção.  Argyro e Anneta não precisam deixar de ser amigas para que o desejo entre elas adquira significado, e o filme se revela não como um lugar para fugir do mundo, mas como um espaço imaginário onde finalmente é possível descobrir que outro modo de viver existe.


segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Bookends (EUA, 2026)

Em “Bookends”,  Nate (Noam Ash) é um escritor tentando construir uma carreira e uma vida em Nova York quando descobre que seu namorado o traiu e vê seu mundo desmoronar de uma vez. Sem dinheiro e sem saber muito bem para onde ir, ele acaba recorrendo aos avós, Saul (F. Murray Abraham) e Miriam (Caroline Aaron), que vivem em uma comunidade judaica para idosos. O que soa como uma derrota, voltar para um lugar que Nate considera distante demais de sua vida, aos poucos se transforma em uma oportunidade de recomeço. Mike Doyle dirige o filme com uma leveza que combina com sua proposta de comédia dramática, deixando que o humor surja do choque entre gerações enquanto a história abre espaço para assuntos bem menos confortáveis.

A relação entre Nate e os avós é o grande eixo dramático do filme. Saul e Miriam não são apresentados como figuras idosas idealizadas, mas como pessoas cheias de personalidade, contradições e pequenas manias. Eles querem ajudar Nate, mas também querem interferir, opinar e reorganizar a vida do neto segundo aquilo que acreditam ser melhor para ele. Existe uma graça particular nessa inversão de expectativas, porque o personagem que volta para casa imaginando que precisa cuidar da própria vida acaba descobrindo que também precisa aprender a ouvir. 


A homossexualidade de Nate também é tratada com grande naturalidade. Depois de tantos filmes queer construídos em torno da rejeição familiar, “Bookends” imagina uma situação diferente: o avô e a avó não precisam aprender a aceitar que o neto é gay porque, essencialmente, já o amam. A questão está em outra parte. Nate precisa descobrir como continuar pertencendo a uma família sem abrir mão da própria identidade e, ao mesmo tempo, aprender que a vida afetiva de seus avós também é feita de escolhas, frustrações, cumplicidades e concessões. A relação com Daniel (Charlie Barnett), o médico dos avós, nasce nesse contexto e funciona como uma extensão desse processo de reconstrução.


A obra ganha outra camada quando a demência começa a atravessar a história de Saul. Miriam inicialmente se recusa a aceitar que o marido está apresentando sinais de declínio cognitivo, enquanto Nate fica cada vez mais dividido entre a vontade de recuperar sua independência e a responsabilidade diante de uma situação que não pode simplesmente ignorar. É nesse momento que “Bookends” encontra seu tema mais delicado: envelhecer também significa assistir pessoas que sempre pareceram indestrutíveis perderem lentamente aquilo que as definia. E isso dói.


O filme sabe exatamente quando provocar uma risada, quando inserir uma conversa sentimental e quando aproximar Nate de Daniel. Essa segurança torna a experiência agradável, mas também deixa alguns conflitos previsíveis demais. O mérito está em não transformar essa previsibilidade em cinismo. “Bookends” parece saber que seu objetivo não é reinventar a comédia romântica, mas encontrar dentro dela um espaço para falar de envelhecimento, solidão, família e pertencimento.


O título ganha sentido quando percebemos que Nate está cercado por pessoas que funcionam como extremos e referências de diferentes momentos da vida. Os avós representam um passado que ele julgava ultrapassado, enquanto sua própria trajetória ainda está sendo escrita. No meio disso existe Daniel, uma nova possibilidade afetiva, e existe também a literatura, que Nate tenta usar para organizar aquilo que sente. “Bookends” não trata o recomeço como uma transformação grandiosa, mas como algo muito mais cotidiano: voltar para casa, ouvir os avós, aceitar ajuda, cuidar de quem precisa e permitir que alguém novo entre na sua vida.


domingo, 27 de setembro de 2026

Bloody Tennis (Alemanha, 2026)

Em “Bloody Tennis”, Nikias Chryssos transforma uma academia de tênis em um pesadelo de aparência impecável. Sophie (Sandra Guldberg Kampp) chega a uma instituição de elite no sul da Europa para tentar se tornar uma grande jogadora, mas encontra um ambiente em que disciplina, competição e obediência escondem alguma coisa muito mais perturbadora. A estrutura lembra imediatamente “Suspiria”, referência assumida pelo próprio diretor, mas Chryssos também mistura o horror de internato com a energia de filmes adolescentes e esportivos como “Mean Girls” e “Bring It On”. É um filme que desde o início entende o quanto existe de violência em ambientes construídos para produzir excelência.

O tênis é uma escolha interessante porque transforma a competição em uma experiência quase ritualística. Diferentemente de esportes de contato, o adversário está sempre do outro lado da quadra, separado por uma rede, mas cada movimento carrega uma espécie de agressividade silenciosa. Chryssos explora justamente essa contradição entre a elegância do esporte e a brutalidade necessária para vencer. A academia funciona como uma instituição total, onde o desempenho vale mais do que a humanidade e perder deixa de ser apenas uma derrota esportiva para se transformar em ameaça física.

É nesse espaço de controle e mulheres que o longa encontra uma representação sáfica nem tão sutil. Sophie se aproxima de Bana (Tracy Gotoas), uma das outras jogadoras, e o romance entre as duas nasce justamente dentro de um ambiente que exige que qualquer distração seja eliminada. O desejo aparece como uma possibilidade de intimidade, vulnerabilidade e reconhecimento em meio a uma estrutura construída para transformar meninas em máquinas competitivas. 

“Bloody Tennis” inteligentemente associa o treinamento esportivo a uma espécie de domesticação do corpo feminino. As jogadoras precisam controlar peso, força, comportamento, emoções e desejo. Tudo aquilo que escapa à performance ideal passa a ser tratado como fraqueza. O horror corporal nasce justamente daí, da transformação de uma lógica esportiva reconhecível em uma máquina grotesca de produzir corpos obedientes. Sangue, feridas, fome, animais, entranhas e outras imagens repulsivas fazem com que o corpo deixe de ser instrumento de vitória e passe a revelar aquilo que a instituição tenta esconder. 

O filme também sabe ser deliciosamente exagerado. Elina Löwensohn transforma Mary Tyrone em uma figura quase caricatural de autoridade, ao mesmo tempo maternal, paterna, médica e monstruosa, enquanto o ambiente inteiro parece operar segundo regras próprias. Chryssos não procura esconder suas referências, mas brincar com elas. O resultado é uma espécie de horror europeu camp, ainda que o filme nem sempre consiga equilibrar perfeitamente o grotesco, o suspense e a crítica à cultura da alta performance.

“Bloody Tennis” não constrói uma grande mitologia sobre o esporte, mas usa o tênis como linguagem para falar de desejo, disciplina e violência. A quadra se transforma em uma extensão da instituição, e a competição passa a significar muito mais do que ganhar uma partida. Sophie precisa decidir até onde está disposta a ir para conquistar aquilo que deseja, mas também precisa descobrir o que acontece quando a sobrevivência exige abandonar justamente aquilo que a torna humana.

sábado, 26 de setembro de 2026

GUIA QUEER: FESTIVAL DO RIO 2026

O Festival do Rio acontece entre 1º e 11 de outubro e, mais uma vez, a programação internacional oferece um panorama especialmente fértil para quem procura no cinema histórias sobre desejo, sexualidade, gênero, identidade, masculinidades, corpos dissidentes e formas alternativas de existir. A presença queer não está concentrada em uma única mostra ou em uma definição rígida de “filme LGBTQIA+”. Ela aparece em dramas históricos, romances, terrores, comédias, animações, documentários e histórias de formação.

E existe um ponto de partida praticamente inevitável: “A Bola Preta” (“La Bola Negra”), de Javier Calvo e Javier Ambrossi, escolhido para a Gala de Abertura. O filme atravessa três momentos da história espanhola, em 1932, durante a Guerra Civil e em 2017, conectando três homens através do desejo, da sexualidade, da dor e de um silêncio que atravessa gerações. Inspirado em uma obra inacabada de Federico García Lorca, o longa ganhou o prêmio de Melhor Direção em Cannes e chega ao Rio cercado por uma expectativa enorme. 


DESEJO, AMOR E MASCULINIDADES

O desejo masculino aparece de maneiras muito diferentes na programação. Em “The Man I Love”, Ira Sachs retorna à Nova York do final dos anos 1980 para acompanhar Jimmy George, um performer diagnosticado com AIDS que se recusa a deixar que a doença determine sua existência. Em “Coward”, Lukas Dhont volta à Primeira Guerra Mundial para contar o romance secreto entre dois soldados. Já “Um Longo Inverno”, de Andrew Haigh, leva o desejo para uma paisagem montanhosa dos Estados Unidos dos anos 1950. E há ainda “Iván & Hadoum”, de Ian de la Rosa. Vencedor do Teddy de Melhor Longa-Metragem na Berlinale, o filme acompanha Iván, um homem trans que se apaixona por Hadoum, sua colega de trabalho nas estufas de tomate do sul da Espanha. “We'll Find Happiness”, de Léa Pool, amplia esse mapa ao colocar o amor queer diante das fronteiras e da violência dos Estados. "La Gradiva", de Marine Atlan, traz um amor não correspondido nas ruínas em Pompeia.


O BRASIL QUEER EM MUITAS FORMAS

Entre os filmes brasileiros, talvez o mais interessante seja justamente perceber como não existe uma única maneira de representar experiências não normativas. “A Margem do Rio”, de Matheus Farias e Enock Carvalho, leva o desejo masculino para os manguezais do Recife. Em “London”, de Victor Di Marco e Márcio Picoli, vencedor do Queer Lion em Veneza, um jovem com deficiência trabalha em uma casa de fetiche e aceita passar por um exame médico para tentar compreender melhor o próprio corpo.  “A Professora de Francês”, de Ricardo Alves Jr., com Grace Passô, coloca uma relação entre duas mulheres no centro de uma narrativa que também passa por família, religião, intolerância e pertencimento. A infância também aparece em “Feito Pipa”, de Allan Deberton. Gugu está prestes a completar 12 anos e vive com a avó, enquanto enfrenta as expectativas do pai e da comunidade ao redor. Em “Amora”, a dimensão lésbica deixa de ser subtexto para ocupar o centro da narrativa. A série antológica, dirigida por Juliana Rojas e baseada na obra de Natália Borges Polesso. O Festival exibe o episódio de estreia.  E existe uma representatividade que não depende necessariamente de um romance ou de uma identidade explicitada em cena. “Ney por trás das máscaras”, de Esmir Filho, acompanha Ney Matogrosso durante a preparação para um desfile da Imperatriz Leopoldinense. "Me Deixe Ser", de Viviane D'Ávila retrata vivências intersexo no Brasil, EUA e Índia. Até o grotesco entra. “Privadas de Suas Vidas”, de Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner, mistura horror, humor escatológico e drama familiar para acompanhar uma mãe diante das dificuldades envolvendo seu filho não binário.


London, de Victor di Marco e Márcio Picoli

MEMÓRIA, REPRESSÃO E HISTÓRIAS QUE FORAM APAGADAS

“Barbara Forever”, de Brydie O'Connor, segue a cineasta experimental lésbica Barbara Hammer através de cinco décadas de arquivos, diários sonoros, fotografias e imagens inéditas. O filme ganhou o Teddy de Melhor Documentário em Berlim 2026. “Quem Matou Narciso?”, de Marcelo Martinessi, olha para outro momento em que sexualidade e repressão política se encontram. Ambientado no Paraguai de 1959, durante a ditadura, o filme acompanha Narciso, uma estrela de rádio que leva o rock'n'roll de Buenos Aires para o país e se transforma em símbolo de liberdade. “Seis Meses no Prédio Rosa e Azul”, de Bruno Santamaría Razo, trabalha a memória de uma maneira mais íntima. Bruno tem 11 anos quando começa a desenvolver sentimentos pelo amigo Vladimir, enquanto ao redor deles existe também o medo provocado pela epidemia de HIV. Em “Jaripeo”, de Efraín Mojica e Rebecca Zweig, a memória queer aparece em meio à cultura dos rodeios de Michoacán, onde códigos de masculinidade extremamente rígidos convivem com olhares, toques e desejos clandestinos. “Qual o Destino?”, de Assaf Machnes, leva essa discussão para Berlim. Hassan, um motorista palestino de 55 anos, conhece Amir, um jovem israelense que está explorando sua sexualidade. "A Educação de Jane Cumming", de Sophie Heldman, aborda classe, raça e sexualidade em uma sociedade dominada pelo patriarcado. E “Father, Father”, de Jake Witzenfeld, acompanha um casal gay formado por Khader e Aviv, um muçulmano e um judeu, enquanto os dois discutem a possibilidade de construir uma família em meio à guerra, à propaganda e ao extremismo político. 


O HORROR, A COMÉDIA E O CAMP

Uma das coisas mais divertidas desta programação é perceber como o cinema queer não precisa estar preso ao drama realista. “Jim Queen”, de Nicolas Athané e Marco Nguyen, talvez seja o exemplo mais escancarado. Na animação, um vírus chamado “Heterose” começa a transformar homens gays em heterossexuais.  “A Gruta” (“Bearcave”) encontra o desejo lésbico dentro de um conto quase mítico. Argyro é secretamente apaixonada por Anneta, sua amiga de infância, que está grávida e pretende deixar a vila. No horror, “Leviticus”, de Adrian Chiarella, transforma a homofobia religiosa em pesadelo literal. “Rosebush Pruning”, de Karim Aïnouz, mergulha no desejo como território de transgressão. Ed narra sua obsessão por George, enquanto Robert desenvolve uma relação perturbadora com Jack, e a própria estrutura familiar vai dissolvendo as fronteiras entre afeto, rivalidade, dependência e desejo.  E então chega “I Want Your Sex”, de Gregg Araki. Um dos nomes fundamentais do New Queer Cinema retorna com uma comédia sexual provocadora, cheia de desejo, fetiches, jogos de poder e humor. 


CORPOS, GÊNERO E A INVENÇÃO DE SI

“Rose”, de Markus Schleinzer, é ambientado no século XVII, durante a Guerra dos Trinta Anos, o filme acompanha uma pessoa que assume a identidade de um soldado para conquistar liberdade e reivindicar uma herança. Sandra Hüller recebeu o Urso de Prata por sua atuação, em Berlim. “Soy Mario” parte de outra relação com o corpo. Mario é um homem trans que trabalha como motorista de táxi e vive cercado por expectativas de masculinidade. Uma gravidez inesperada o coloca diante da possibilidade da paternidade e o obriga a reconsiderar a própria relação com o corpo. Já “Chica Checa”, de Simon Holý, aproxima gênero e família através de uma situação aparentemente cotidiana. Uma mãe viúva reencontra o filho que vive na França e descobre aspectos de sua vida que desconhecia. “Elefantes na Névoa”, de Abinash Bikram Shah, acompanha Pirati, que lidera uma comunidade Kinnar formada por mulheres trans no Nepal. Ela sonha em partir com o homem que ama, mas precisa procurar uma de suas “filhas” desaparecida 

Soy Mario, de Sharon Kleinberg

GALA DE ENCERRAMENTO

No encerramento internacional do Festival, “Club Kid”, de Jordan Firstman, volta explicitamente para a cultura queer de Nova York. Peter é um promoter de festas que vive entre drogas, sexo e noites intermináveis até descobrir que tem um filho de dez anos. A chegada de Arlo coloca em choque a vida noturna, a paternidade e a possibilidade de construir uma família sem abandonar completamente a comunidade que o formou. É uma comédia dramática sobre amadurecimento, mas também sobre vulnerabilidade, afeto e família escolhida. O fato de Firstman estar simultaneamente na direção, no roteiro e no papel principal dá ao filme uma dimensão bastante pessoal.

E o Festival ainda olha para a própria história do cinema queer com uma retrospectiva inédita de Rosa von Praunheim, realizada em parceria com o Goethe-Institut. A abertura será com “Não É o Homossexual Que É Perverso, Mas a Situação Em Que Ele Vive” (1971), marco histórico do cinema queer e da militância gay alemã, em uma seleção que reúne outros seis longas do cineasta.

Este ano o evento desenha um percurso bastante amplo. Há romances escondidos, homens tentando descobrir que tipo de masculinidade querem habitar, mulheres apaixonadas, pessoas trans reconstruindo a própria relação com o corpo, crianças procurando um lugar seguro, famílias tentando entender seus próprios filhos, histórias atravessadas pela AIDS, pela migração, pela religião e pela repressão, além de muito horror, humor, sexo e exagero. Para conferir datas, horários e locais das sessões, consulte a programação oficial do Festival do Rio. 


Club Kid, de Jordan Firstman