quinta-feira, 18 de junho de 2026

Preto Queima Rapidamente (Black Burns Fast, África do Sul, 2026)

 

"Black Burns Fast", estreia em longas da cineasta sul-africana Sandulela Asanda, chega como uma rara celebração da juventude queer negra sem recorrer à tragédia como motor principal. Ambientado em um internato de elite na África do Sul pós-apartheid, o filme acompanha Luthando (Esihle Ndleleni), uma estudante aplicada cuja rotina muda com a chegada da nova aluna Ayanda (Muadi Ilung). O despertar de um desejo inesperado obriga a protagonista a confrontar sua sexualidade, suas amizades e o lugar que ocupa dentro de um ambiente ainda marcado por hierarquias sociais e raciais.

O que mais chama atenção é a leveza com que Asanda conduz uma narrativa que poderia facilmente cair no clichê. Há conflitos envolvendo aceitação, preconceito e pertencimento, mas o filme prefere investir no humor, na fantasia adolescente e nos pequenos constrangimentos da descoberta afetiva. Em vez de transformar a experiência queer em sofrimento permanente, "Black Burns Fast" aposta na alegria, no encanto e na possibilidade de imaginar futuros mais generosos para seus personagens.

O romance sáfico surge de forma espontânea, cercado pelas inseguranças típicas da adolescência, enquanto o roteiro explora as múltiplas identidades que a protagonista precisa equilibrar para sobreviver à pressão familiar e escolar. O resultado é um retrato afetuoso da juventude lésbica negra, ainda pouco vista com essa naturalidade no cinema internacional.

Visualmente, o filme dialoga com a linguagem das redes sociais, dos videogames e da cultura pop contemporânea. Há uma energia colorida e vibrante que transforma paixões adolescentes em eventos quase épicos. A fotografia, de Pierre de Villiers, encontra beleza tanto nos corredores do internato quanto nos momentos de fantasia romântica, enquanto a direção imprime um ritmo ágil que aproxima a obra de clássicos modernos do coming-of-age sem perder sua identidade sul-africana.

Nem tudo funciona com a mesma precisão. Algumas situações são resolvidas de maneira excessivamente conveniente e certos conflitos perdem força justamente quando poderiam ganhar maior complexidade dramática. O roteiro privilegia a sensação de acolhimento à tensões mais profundas, o que pode frustrar espectadores que esperam um mergulho mais contundente nas contradições sociais apresentadas pelo filme. 

Mesmo com algumas equivocações narrativas, "Black Burns Fast" representa um passo importante para o cinema queer africano contemporâneo. Sandulela Asanda entrega uma obra divertida, romântica e assumidamente otimista, que reivindica espaço para histórias negras e LGBTQIA+ marcadas pela alegria, pela imaginação e pela possibilidade de sonhar. Em tempos nos quais tantas narrativas queer continuam associadas à dor, há algo profundamente político em assistir a um filme que escolhe celebrar o amor, a amizade e a descoberta de si mesmo.


Equipo (Espanha, 2024)

“Equipo”, curta dirigido por Miguel Carrillo e Ángel Torrego, aborda uma ferida ainda aberta no universo esportivo: a homofobia dentro do futebol masculino. A produção espanhola segue Álex, um jovem jogador que mantém um relacionamento secreto com o colega Sergio enquanto ambos tentam sobreviver a um ambiente marcado pelo machismo e pelo medo constante da rejeição.

O filme compreende que o armário, no contexto esportivo, não é apenas uma questão individual, mas coletiva. O silêncio de Sergio e a crescente solidão de Álex revelam como a masculinidade tóxica se perpetua através da cumplicidade involuntária daqueles que aprendem a esconder quem são para sobreviver. O roteiro de Ángel Torrego evita discursos grandiosos e aposta em situações reconhecíveis, construindo uma tensão emocional que cresce a cada interação entre os personagens e seus companheiros de equipe.


Embora a narrativa siga uma estrutura relativamente convencional, sua força nasce justamente da familiaridade do tema. O futebol continua sendo um dos espaços mais resistentes à diversidade sexual, e “Equipo” evidencia como o preconceito não precisa se manifestar apenas por meio da violência física. Os olhares, as piadas e a pressão pela conformidade funcionam como mecanismos igualmente cruéis de exclusão.

Do ponto de vista técnico, o curta demonstra eficiência e objetividade. A direção de fotografia de Keith Arnold Oré privilegia a fisicalidade dos treinos, dos vestiários e dos gramados, transformando o esporte em um espaço simultaneamente de desejo e ameaça. A câmera permanece próxima dos personagens, reforçando a sensação de confinamento emocional que acompanha Álex durante toda a narrativa.

Não há espaço para fantasias idealizadas ou histórias de aceitação instantânea. O relacionamento entre Álex e Sergio é atravessado pelo medo, pela insegurança e pela dificuldade de imaginar um futuro possível naquele contexto. Essa escolha torna o curta particularmente relevante, pois reconhece que muitas experiências LGBTQIA+ no esporte continuam sendo marcadas pela invisibilidade e pela autocensura.

“Equipo” cumpre aquilo que se propõe a fazer. É um drama breve, contundente e necessário, que transforma o campo de futebol em um microcosmo das disputas sociais contemporâneas. Ao dar rosto e voz a personagens frequentemente apagados das narrativas esportivas, Miguel Carrillo e Ángel Torrego lembram que, para muitos jogadores, a partida mais difícil ainda acontece fora da linha de campo.



quarta-feira, 17 de junho de 2026

"Quinze Dias" estreia nos cinemas e leva às telas romance juvenil sobre aceitação e autodescoberta

A adaptação cinematográfica de "Quinze Dias", livro de estreia do escritor brasileiro Vitor Martins, chega aos cinemas de todo o país nesta quinta-feira (18). Voltado ao público jovem adulto, o longa-metragem acompanha a trajetória de um adolescente que enfrenta inseguranças, bullying e a descoberta dos primeiros sentimentos amorosos.

Dirigido por Daniel Lieff, o filme é protagonizado por Miguel Lallo e Diego Lira. A história gira em torno de Felipe, um jovem acima do peso e tímido que espera ansiosamente pelas férias escolares para se dedicar aos livros e séries que gosta, longe dos colegas que costumam hostilizá-lo.

Os planos do adolescente, no entanto, são interrompidos quando sua mãe, Rita, personagem interpretada por Débora Falabella, decide hospedar por quinze dias o vizinho Caio enquanto os pais do rapaz viajam. A convivência inesperada desperta emoções que Felipe acreditava estarem adormecidas, já que Caio foi sua primeira paixão na infância.

Ao longo da narrativa, os dois jovens se aproximam e passam por um processo de autodescoberta marcado por conflitos, inseguranças e novas experiências. A produção aborda temas como gordofobia, identidade, aceitação e o primeiro amor, questões presentes no romance original que conquistou leitores desde seu lançamento.


Além dos protagonistas, o elenco reúne Mika Soeiro, Bel Moreira, Mariana Santos, Olivia Araujo, Márcio Vito e João Pedro Chaseliov. O filme também conta com participações especiais de Fernando Caruso, Silvio Guindane e Augusto Madeira.

Com roteiro assinado por Ray Tavares e Vitor Brandt, "Quinze Dias" é uma produção da Conspiração⁠ e tem distribuição da Manequim Filmes⁠. O longa tem produção de Renata Brandão e Juliana Capelini, patrocínio master do Nubank⁠ e apoio do BNDES⁠. A expectativa é que a adaptação amplie o alcance da obra de Vitor Martins ao levar para as telas uma história centrada na diversidade, na autoestima e nos afetos da juventude contemporânea.



As Correntes (Las Corrientes, Argentina/Suíça, 2025)



Por Bruno Weber 

O tema favorito da diretora argentina Milagros Mumenthaler é o de mulheres em momentos de transformação. Em seu terceiro longa-metragem após "Abrir Portas e Janelas" e "La Idea de Un Lago", ela se aprofunda nessa ideia, criando um retrato intimista de sua protagonista enquanto atravessa uma avassaladora crise de identidade que se manifesta física e simbolicamente através de sua relação com o elemento mais ancestral da vida: a água. Em "As Correntes", Isabel Aimé González Sola interpreta Lina, uma estilista de 34 anos, aparentemente realizada tanto profissionalmente quanto em sua vida pessoal ao lado do marido Pedro (Esteban Bigliardi) e de sua filha pequena Sofia (Emma Fayo Duarte). O filme começa com uma longa sequência sem diálogos, na qual encontramos Lina durante uma viagem rápida para a Suíça. Após receber um prêmio em homenagem ao seu trabalho, ela começa a vagar sozinha por ruas vazias, como se algo invisível chamasse por ela, até parar em uma ponte e subitamente se jogar nas águas geladas do rio. Depois de ser resgatada, Lina descobre que desenvolveu um estranho caso de hidrofobia. Incapaz de ter o menor contato com água sem entrar num pânico terrível, ela retorna para a Argentina tentando manter uma aparência de normalidade. Para isso, ela pede a ajuda de Amalia (Jazmín Carballo), uma antiga amiga que ela não via há muito tempo, para lavar seu corpo e seus cabelos enquanto ela fica sob anestesia geral.

Muito mais do que um estudo de personagem baseado na maravilhosa performance de sua atriz principal, "As Correntes" é uma narrativa sensorial aberta a diversas interpretações, no sentido de que a trama se desenrola através das percepções de Lina do mundo ao seu redor e de si mesma, sensações que não necessariamente conseguem se traduzir em palavras. Na verdade, nos momentos em que Lina tenta explicar verbalmente o que acontece com ela, é como se o mistério apenas se complicasse. Inclusive, Mumenthaler adota em vários momentos um pouco da linguagem de filmes de mistério para refletir a maneira como a personagem de Lina investiga a si própria, com longas caminhadas por corredores e olhares que interrogam os ambientes e objetos que encontra. Mas essa abordagem acaba revelando mais da própria relação de Lina com as imagens, ainda mais quando fica claro que muito da crise pela qual ela está passando foi desencadeada pela visão de uma tapeçaria específica, retratando um grupo de mulheres fiandeiras. Seria como se essa imagem a colocasse em conflito com seu próprio papel de mulher e estilista. O ato de se produzir ou de se observar obras de arte é presente em toda a narrativa, e a forma como isso afeta Lina e seu medo de água sugere um tipo muito específico de Síndrome de Stendhal, que causa reações físicas e emocionais fortíssimas em certos indivíduos expostos a alguma beleza artística transcendental. Mas essa ainda é uma leitura rasa para descrever tudo o que ocorre com Lina, sintomas de um conflito direto consigo mesma.


Dessa forma, não demora para a história se mostrar pertencendo a uma lógica mais simbólica, dotada dos elementos surreais de um devaneio. Em especial numa outra longa sequência que acontece no final do segundo ato, quando a consciência de Lina parece acompanhar a luz de um farol, se conectando com todas as pessoas e objetos que toca. Embalado pela música "Vênus, o Mensageiro da Paz", o segundo movimento da suíte orquestral "Os Planetas", composta por Gustav Holst, esse é talvez o melhor momento do filme - se alguém for propenso à tal Síndrome de Stendhal, é melhor tomar cuidado. A sequência é um contraponto a um dos medos que Lina revela numa cena anterior, quando diz se considerar efêmera. É na conexão com outras pessoas e com o universo que elas habitam que ela começa a se reconectar consigo própria.


Depois disso, nota-se que o filme perde um pouco de sua intensidade antes do final, mas isso até chega a imitar o processo de uma crise começando a se resolver. Aos poucos, Lina passa a questionar o quanto de si mesma ela teve que censurar ou ignorar para criar essa versão da mulher perfeita, da estilista famosa que recebe prêmios na Suíça. Por exemplo, ao confrontar a figura esquecida de sua mãe, uma mulher agorafóbica e solitária morando num bairro pobre e afastado, ela também confronta sua própria imagem de esposa e mãe escondendo um distúrbio mental. O filme também dá a entender, pelos temores de Pedro ao saber que Lina e Amalia se reencontraram, que o relacionamento anterior das duas poderia ser mais do que uma simples amizade, e que Lina também estaria no processo de redescobrir sua sexualidade. É uma noção reforçada em outro momento, quando o olhar investigativo de Lina cai sobre detalhes da anatomia de sua assistente Julia (Ernestina Gatti), com um misto de curiosidade e desejo, mas também com o estranhamento de perceber outra mulher a sua frente que também pode conter um oceano profundo, cheio de mistérios sem solução.


terça-feira, 16 de junho de 2026

Mostra Quem Quer Queer, de 22 de junho a 8 de julho no Rio de Janeiro

Batguano Returns

De 22 de junho a 8 de julho, o Estação Rio e o Estação Gávea, vão receber a mostra Quem Quer Queer?, que celebra todas as formas de ser e desejar, em referência ao Mês do Orgulho LGBTQIAPN+. Com uma programação de mais de 40 longas, internacionais e brasileiros, a Mostra será inaugurada com Apenas Coisas Boas, dirigido por Daniel Nolasco, a Abertura ocorrerá em duas salas simultâneas com pipoca liberada! 

Esta quarta Edição da mostra Quem Quer Queer? também conta com eventos especiais como: Mesas de conversa com a mediação de Andrea Ormond, sessão de curtas, performances, feiras, a festa Me Chama de Pop e muito mais. A Mostra Quem Quer Queer?  tem o apoio da Riofilme e é aprovada e apoiada com recursos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura.


O Estação expande a seleção de filmes queer para oferecer um mosaico de clássicos da história das narrativas LGTQIAPN+, e difundir ao público algumas das produções mais esperadas do momento, que acabaram de sair do forno dos festivais e circuito internacionais, como Fucktoys e She’s the He!, exibidos no SXSW do ano passado.

Nos últimos dias a Quem Quer Queer? homenageia o artista Tavinho Teixeira, ator e diretor que participou de algumas das produções mais ousadas e criativas do cinema brasileiro dos últimos tempos, com sessões de 6 longas com atuação e/ou direção de Tavinho, incluindo pré-estreias de Morte e Vida Madalena e Batguano Returns - Roben na Estrada.


Fucktoys


Baban Baban Ban Vampire (Japão, 2025)

 "Baban Baban Ban Vampire", de Shinji Hamasaki, é adaptado do mangá de Hiromasa Okujima, e acompanha Ranmaru Mori, um vampiro de mais de 450 anos, que trabalha em uma casa de banhos japonesa, enquanto espera o momento ideal para provar o sangue de um jovem virgem. Quando o adolescente Rihito se apaixona por uma colega de escola, o vampiro entra em desespero e inicia uma operação absurda para impedir que o romance avance.

Muitas das piadas apostam na repetição, no exagero e em uma energia quase histérica que beira o desenho animado. Ainda assim, há algo admirável na maneira como o cinema popular japonês se entrega por completo às suas ideias mais extravagantes. O filme jamais pede desculpas por ser ridículo. Pelo contrário, transforma o absurdo em linguagem, criando uma experiência que parece ter saído de um cruzamento improvável entre uma comédia romântica adolescente, um musical pop e uma fantasia vampiresca. 


O grande mérito da produção está justamente em seu espetáculo visual. Hamasaki compreende que a narrativa funciona melhor quando abraça a artificialidade. Os figurinos extravagantes, as cores saturadas, os enquadramentos que parecem páginas de mangá e a energia performática do elenco transformam cada cena em um pequeno show. Há momentos que lembram a lógica visual do K-Pop, com sua obsessão por imagens impecáveis, coreografias implícitas e ídolos fotografados como deuses inalcançáveis. É um filme que vive da superfície, mas o faz com convicção.


A dimensão queer também é parte fundamental da experiência. Embora a obra se apresente como uma "comédia sangrenta de amor", o relacionamento entre Ranmaru e Rihito flerta constantemente com códigos do universo Boys' Love, ao mesmo tempo em que brinca com a tradição dos vampiros como figuras de desejo reprimido e obsessão romântica. 


Talvez "Baban Baban Ban Vampire" não seja uma obra para mim, nem particularmente profunda. Ainda assim, existe algo contagiante em sua grandiosidade pop. Entre vampiros melodramáticos, paixões adolescentes, referências ao mangá e uma estética que parece amplificar tudo até o máximo volume, o filme encontra uma identidade própria. Mesmo para quem tem reservas com esse tipo de humor, é difícil não admirar a confiança com que Hamasaki transforma uma ideia completamente absurda em um espetáculo vibrante, colorido e assumidamente camp.



segunda-feira, 15 de junho de 2026

Insaciável (Saccharine, Austrália, 2025)

Natalie Erika James confirma em "Saccharine" que o body horror continua sendo uma das ferramentas mais potentes para discutir as obsessões contemporâneas. Depois de "Relic" e "Apartment 7A", a diretora australiana mergulha em um pesadelo sobre distorção de imagem, compulsão alimentar e a indústria da magreza, transformando a busca por um corpo ideal em uma experiência sobrenatural tão perturbadora quanto tristemente reconhecível. O longa acompanha Hana (Midori Francis), uma estudante de medicina que passa a consumir cinzas humanas como parte de uma perigosa moda de emagrecimento, despertando forças que escapam ao seu controle.

O roteiro trata o horror não como algo externo, mas como uma manifestação física da vergonha, da ansiedade e da autodestruição. Hana é uma personagem constantemente em conflito consigo mesma, presa entre a necessidade de aprovação e a incapacidade de aceitar a própria imagem. A jornada da protagonista ganha contornos cada vez mais delirantes à medida que o misterioso suplemento conhecido como The Gray começa a produzir resultados. 

Hana nutre uma paixão por sua treinadora Alanya (Madeleine Madden), e o filme compreende perfeitamente como desejo e identificação podem se confundir. Existe uma tensão constante entre querer estar com alguém e querer ser alguém. Natalie Erika James utiliza esse espelhamento para discutir padrões de beleza, projeções afetivas e inseguranças corporais dentro de uma perspectiva sáfica.

"Saccharine" é um banquete grotesco. A fotografia, de Charlie Sarroff, alterna tons vibrantes e quase açucarados com imagens de decomposição, carne e deterioração. A diretora constrói um universo sensorial onde luz, textura e som parecem se infiltrar sob a pele.


Ao mesmo tempo, o longa encontra relevância ao dialogar diretamente com a cultura das dietas milagrosas e dos medicamentos para perda de peso que dominam as redes sociais. Sem recorrer ao moralismo, o filme desmonta a promessa de felicidade vendida pela indústria do emagrecimento. A cada quilo perdido, Hana parece se afastar ainda mais de si mesma. O horror nasce justamente dessa lógica cruel que transforma corpos em projetos intermináveis de aperfeiçoamento. Foi algo que Ryan Murphy TENTOU fazer, em "The Beauty".

Natalie Erika James entrega um horror visceral, queer e emocionalmente devastador, sustentado por uma atuação corajosa de Midori Francis e por uma direção que transforma inseguranças íntimas em imagens que ficam na retina. Entre fantasmas famintos, cinzas humanas e corpos em transformação, o filme encontra algo muito mais assustador do que qualquer criatura sobrenatural: a violência silenciosa que tantas pessoas dirigem contra si mesmas todos os dias.

domingo, 14 de junho de 2026

Other People's Bodies (EUA, 2025)

"Other People's Bodies", de Alan Brown,é inspirado livremente no clássico francês "La Piscine"(1969). O longa acompanha Olivia (Annie Parisse) e Seb (A.J. Shively), um casal que tenta desfrutar alguns dias de descanso em uma propriedade isolada no campo. A tranquilidade é interrompida pela chegada inesperada de Mateo (McKinley Belcher III), antigo melhor amigo de Olivia, e de seu jovem namorado Zaki (Jasai Chase Owens). O reencontro entre os quatro desencadeia um jogo de tensões afetivas e sexuais que revela ressentimentos acumulados ao longo de quase uma década de afastamento.

Brown demonstra grande interesse pelas zonas cinzentas dos relacionamentos. O roteiro explora a maneira como memórias, desejos e mágoas permanecem vivas mesmo quando os personagens tentam seguir em frente. A convivência forçada naquele ambiente isolado transforma cada conversa em uma zona de conflito.

A representatividade queer ocupa um lugar central na narrativa, mas de forma madura e integrada aos conflitos humanos dos personagens. Mateo e Zaki não existem para cumprir uma função simbólica ou pedagógica. Seus desejos, inseguranças e dinâmicas de poder são tratados com a mesma complexidade dedicada ao casal heterossexual. Essa abordagem é coerente com a filmografia de Brown, que há anos desenvolve histórias centradas em personagens queer multifacetados.

"Other People's Bodies" aposta em uma atmosfera sensual e melancólica. A casa de campo funciona quase como um quinto personagem, cercando o grupo com paisagens ensolaradas que contrastam com a turbulência emocional que se desenrola em seu interior. A fotografia privilegia corpos, reflexos, água e espaços vazios, remetendo diretamente ao erotismo elegante de "La Piscine".

"Other People's Bodies" não consegue alcançar a mesma potência hipnótica da obra que o inspira, mas encontra sua própria identidade ao atualizar seus conflitos para uma sensibilidade contemporânea e explicitamente queer. Alan Brown utiliza o reencontro de antigos amantes e amigos para refletir sobre o peso das escolhas, a persistência do desejo e a impossibilidade de reescrever o passado.

Nena (Espanha, 2025)

"Nena", de Gabriel Ochoa, entende que a infância não é um lugar de inocência absoluta, mas um território de observação. Ambientado na Valência de 1987, o longa acompanha Marc, um menino de dez anos que passa alguns dias na casa da tia Lola enquanto seus pais enfrentam uma dolorosa separação. O que poderia ser apenas um drama familiar transforma-se em uma delicada crônica sobre descoberta, desejo e os mistérios do mundo adulto vistos através de olhos ainda incapazes de compreender completamente aquilo que testemunham.

Há uma melancolia constante atravessando o verão, não apenas pela ruptura familiar que paira sobre Marc e sua irmã Empar, mas pela sensação de que algo está mudando para todos os personagens. A chegada de Elsa, uma atriz que desperta sentimentos inesperados em Lola, introduz uma camada romântica que o filme trata com enorme sensibilidade.

O romance sáfico entre a tia Lola e Elsa é uma história de amor contada de maneira delicada, filtrada pela percepção de uma criança que talvez não compreenda completamente o que vê, mas percebe a felicidade, a tensão e a liberdade que aquela relação representa. A perspectiva de Marc é fundamental para o funcionamento do filme. Enquanto observa a aproximação entre as duas mulheres, ele próprio atravessa um processo de descoberta.

O mundo adulto surge como um espaço complexo, povoado por afetos contraditórios, desejos ocultos e verdades difíceis de explicar. Essa escolha narrativa impede que "Nena" se torne apenas uma história de amor e o transforma também em um retrato da formação de um olhar, de uma sensibilidade que começa a entender que existem muitas formas possíveis de amar.

A atmosfera nostálgica é reforçada pela fotografia luminosa de Gema Briones, que captura o calor do verão valenciano com tons suaves e acolhedores. A direção de arte de Maje Tarazona recria os anos 1980 sem transformar a década em mera coleção de referências visuais. Já a trilha de Arnau Bataller dialoga com a presença da canção "Nena", de Miguel Bosé, cuja utilização ajuda a evocar não apenas uma época específica, mas também um estado emocional marcado pela juventude, pela saudade e pela descoberta.

"Nena" é um filme sobre primeiros olhares, primeiras compreensões e primeiras liberdades. Gabriel Ochoa encontra beleza nas pequenas transformações e nos sentimentos que surgem; Entre separações familiares, amores inesperados e o despertar de novas sensibilidades na infância, o diretor realiza uma obra delicada e humana, capaz de capturar aquele momento raro em que começamos a perceber que o mundo é muito maior, mais complexo, mais fascinante e às vezes mais brutal do se imagina.

sábado, 13 de junho de 2026

Red Light (EUA, 2025)

“Red Light”, estreia do cubano René Lavan na direção de longas, é um thriller psicológico de câmara que transforma um espaço reduzido em um laboratório de desejo, medo e dependência emocional. A premissa: Alex (Justin Powell) e Blake (Jeffry Batista) acordam em um quarto escuro sem qualquer lembrança de como chegaram ali. Sem saídas aparentes e sem respostas, os dois são forçados a confiar um no outro enquanto tentam compreender quem os aprisionou e por quê. O que parece inicialmente um mistério convencional logo tenta trabalhar com ambições mais complexas, mas nao segura nem o suspense psicológico quanto o drama relacional, na pretensão de ser uma espécie de "Jogos Mortais" gay.

O roteiro, de Chris Anthony Ferrer e Jim Kierstead, é completamente previsível ao tratar o cárcere do filme como dinâmica emocional. À medida que o isolamento se prolonga, confiança, paranoia, atração e ressentimento passam a coexistir de forma desconfortável. A ausência de informações concretas sobre a situação, simplesmente não funciona até a chegada do 'clímax'.

 O longa utiliza a proximidade forçada entre os dois homens para investigar intimidade, desejo e dependência afetiva. O vínculo entre Alex e Blake permanece em constante mutação, transitando entre cumplicidade, atração e desconfiança. Mais não é romance e se aproxima do terror queer, quando “Red Light” examina a fragilidade das conexões humanas quando sobrevivência e afeto se tornam praticamente inseparáveis. 

A direção de Lavan aposta na claustrofobia como principal recurso dramático. A iluminação vermelha que dá título ao filme não funciona apenas como elemento visual, mas como símbolo de alerta constante. Cada mudança de luz parece alterar a percepção dos personagens sobre a realidade, criando uma atmosfera de pesadelo febril.

Justin Powell e Jeffry Batista sustentam praticamente todo o filme com atuações intensas e complementares, mas há também a inserção de outros personagens, o que torna o filme muito mais desinteressante. Como a narrativa depende quase exclusivamente da interação entre os dois, qualquer falta de química comprometeria o projeto. 

“Red Light” não subverte o thriller psicológico, de "Jogos Mortais" só tem o visual, mas demonstra coerência ao que se propõe ao utilizar uma estrutura minimalista para discutir controle, desejo e isolamento com representatividade queer. Com apenas 75 minutos, o filme concentra sua energia na construção de uma atmosfera inquietante, ao explorar os limites da confiança e da intimidade.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Blue Film (EUA, 2025)

“Blue Film”, estreia de Elliot Tuttle na direção, estrelado por Kieron Moore e Reed Birney, segue Aaron Eagle (Moore), um camboy especializado em fetiches monetizados que aceita passar uma noite com um cliente misterioso em troca de uma quantia exorbitante. Ao chegar à casa do homem mascarado, porém, descobre uma conexão perturbadora com seu passado. A partir daí, Tuttle transforma uma premissa aparentemente provocativa em um estudo psicológico sobre trauma, desejo e memória. 

O longa se desenrola quase inteiramente como uma peça de câmara, sustentada por diálogos extensos e confrontos emocionais cada vez mais desconfortáveis. Tuttle demonstra interesse não pelo suspense do que aconteceu, mas pelas consequências emocionais que continuam reverberando anos depois. A narrativa coloca Aaron diante de lembranças que ele preferiria manter enterradas, obrigando-o a confrontar questões de identidade, vergonha e sobrevivência emocional. O resultado é um filme que exige atenção constante e frequentemente deixa o espectador incômodo.

A representatividade queer ocupa o centro da obra, mas de maneira radicalmente diferente daquela encontrada em boa parte do cinema LGBTQIA+ contemporâneo. “Blue Film” não busca conforto, validação ou mensagens edificantes. Em vez disso, investiga zonas obscuras do desejo, da sexualidade e da formação da identidade gay. Tuttle discute aquilo que normalmente permanece silenciado, abordando temas delicados sem fetichizá-los. É justamente essa disposição de enfrentar contradições morais e emocionais que torna o filme tão divisivo quanto fascinante. 

A direção aposta na sobriedade. Quase toda a ação acontece dentro de uma casa durante uma única noite, criando uma atmosfera claustrofóbica que reforça a sensação de aprisionamento psicológico. A fotografia de Ryan Jackson-Healy trabalha sombras e espaços vazios com inteligência, enquanto a câmera permanece próxima dos atores, capturando cada hesitação, cada silêncio e cada mudança de expressão. 

As atuações são extraordinárias. Kieron Moore, revelado em "Boots", constrói Aaron como um homem acostumado a performar masculinidade e controle, mas cujas defesas começam a ruir ao longo da noite. Reed Birney, por sua vez, entrega um dos trabalhos mais arriscados de sua carreira, interpretando uma figura moralmente perturbadora sem recorrer à caricatura. A química sustenta diálogos que poderiam facilmente desmoronar sob o peso dos temas abordados. 

“Blue Film” certamente não é para todos. Sua disposição de encarar temas tabus de frente provocou rejeições em festivais e debates acalorados entre críticos e espectadores. Mas há algo admirável na coragem com que Elliot Tuttle recusa simplificações morais e se aventura por territórios que o cinema frequentemente evita. É uma obra difícil, desconfortável e, em diversos momentos, profundamente perturbadora, mas também uma das experiências queer mais ousadas e intelectualmente provocativas dos últimos anos.

Primeiras Impressões de "PROUD": entre excessos, luto e a promessa de um recomeço

Vencedora do Grand Prix do Series Mania 2026 e responsável pelo prêmio de Melhor Ator para Ignacy Liss, "PROUD" chegou à HBO Max cercada de expectativas. O primeiro episódio deixa claro o motivo. A nova série polonesa criada por Karol Klementewicz não busca um protagonista imediatamente adorável, mas alguém profundamente imperfeito, disposto a tropeçar diante dos nossos olhos antes de qualquer possibilidade de redenção.

A apresentação de Filip Raczyński é quase agressiva. Modelo ocasional, frequentador assíduo da cena noturna queer, impulsivo e hedonista, ele atravessa festas embaladas por música eletrônica, drogas e sexo casual. A câmera acompanha esse universo com uma energia inebriante, transformando o espectador em mais um corpo perdido entre luzes estroboscópicas e pistas de dança. Um cover de "Toxic", de Britney Spears, embalando uma sequência de orgia, sintetiza perfeitamente o espírito desse início: sedutor, caótico e perigosamente instável.

O maior acerto do episódio talvez seja não suavizar Filip para conquistar simpatia fácil. À primeira vista, ele parece egoísta, irresponsável e emocionalmente inacessível. Seu corpo está quase sempre em exposição, seja como objeto de desejo, seja como ferramenta de trabalho. Há algo de performático em sua existência, como se ele próprio fosse incapaz de distinguir onde termina a imagem que projeta e onde começa sua verdadeira identidade.

Mas sob as luzes neon surgem as primeiras sombras. Uma cena aparentemente simples, em que Filip realiza um teste rápido de HIV, revela uma vulnerabilidade que a série não verbaliza, apenas sugere. O resultado negativo não elimina a sensação de inquietação. Pelo contrário, reforça a impressão de um personagem constantemente flertando com limites físicos e emocionais que talvez não consiga controlar por muito tempo.

A virada dramática acontece com a morte repentina de sua irmã. Sem transformar a tragédia em mero mecanismo narrativo, o episódio altera completamente o eixo da história ao colocar um bebê no centro da vida de alguém que jamais demonstrou interesse por responsabilidades. O contraste é poderoso: de um lado, a autodestruição; do outro, a possibilidade de cuidado. O nascimento simbólico de uma nova versão de Filip parece surgir exatamente no momento em que sua antiga vida começa a ruir.

Ainda é cedo para saber se "PROUD" cumprirá todas as promessas sugeridas por sua estreia, mas o primeiro episódio estabelece uma base sólida. Entre o luto, os excessos e a paternidade inesperada, a série discute crescimento, pertencimento e sobrevivência queer em uma sociedade conservadora. O começo oferece mais nuvens do que arco-íris, mas talvez seja justamente essa escuridão inicial que torne a jornada de Filip tão intrigante de acompanhar.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Llueve sobre Babel (Colômbia, 2025)

Gala del Sol estreia em “Llueve sobre Babel” com uma obra que parece ter escapado de um sonho febril, ou de uma pista de dança entre a vida e a morte. Inspirado livremente em “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri, o longa transforma um decadente bar de Cali, na Colômbia, em uma espécie de purgatório tropical onde almas apostam anos de suas vidas contra a própria Morte. Entre realismo mágico, fantasia, humor ácido e melodrama queer, a diretora constrói um universo singular, tão excessivo quanto fascinante.

Gala del Sol define sua estética como “trópico-punk retrofuturista”, e cada plano parece abraçar essa proposta sem medo do exagero. Neons, fumaça, suor, figurinos camp, elementos steampunk e uma fotografia vibrante, de Sten Tadashi Olson, criam uma atmosfera que oscila entre o cabaré, o sci-fi e o folclore latino-americano. O resultado é um espetáculo visual que frequentemente coloca a experiência sensorial acima da lógica narrativa.

Mas por trás da exuberância estética existe um filme profundamente interessado em personagens à margem. Drag queens, fantasmas, amantes, músicos, andarilhos e figuras deslocadas ocupam o centro da narrativa, existe até um certo diálogo com "Anhell69" (2022), de Theo Montoya. O Babel do título funciona como um refúgio para identidades dissidentes, um espaço onde desejo, culpa, amor e morte coexistem sem hierarquias.

“Llueve sobre Babel” filma corpos, afetos e performances com liberdade absoluta, recusando qualquer necessidade de explicação ou justificativa. O filme entende a comunidade LGBTQIA+ como parte orgânica de seu universo fantástico, abordando temas como autoaceitação, homofobia, desejo e pertencimento sem perder o tom lúdico. Há algo profundamente libertador na forma como Gala del Sol transforma o inferno dantesco em um carnaval de diversidades sexuais e afetivas.

Nem tudo funciona com a mesma intensidade. A estrutura coral, repleta de personagens e subtramas, por vezes ameaça se perder dentro do próprio labirinto que constrói. Algumas histórias recebem mais atenção do que outras, enquanto certas passagens parecem existir apenas para alimentar a estética fantástica. Ainda assim, mesmo quando a narrativa vacila, a energia criativa da direção impede que o interesse desapareça.

“Llueve sobre Babel” prefere correr o risco do excesso ao conforto da previsibilidade. Entre a fantasia tropical, o melodrama queer, a comédia ácida e a reflexão sobre mortalidade, Gala del Sol entrega uma estreia ousada, delirante e absolutamente autoral. É um filme que dança com a morte, mas sem jamais perder o prazer de estar vivo, transformando Cali em um território onde o impossível não apenas existe, mas pulsa ao ritmo de salsa, neon e a imersão na resistência.


quarta-feira, 10 de junho de 2026

Lunar Sway (Canadá, 2026)

Nick Butler confirma em “Lunar Sway” que o cinema queer pode ser ao mesmo tempo íntimo, estranho e caótico. Protagonizado por Noah Parker, o longa segue Cliff, um jovem bissexual preso à monotonia da pequena cidade desértica de Mooncrest, cuja vida muda quando uma mulher misteriosa, Marg (Liza Weil), surge afirmando ser sua mãe biológica. O que começa como um drama de reencontro familiar rapidamente se transforma em uma jornada repleta de desvios, segredos e encontros improváveis.

Há algo deliberadamente excêntrico na construção narrativa de Butler. O diretor aposta em uma lógica quase onírica, permitindo que os acontecimentos se acumulem sem a preocupação de oferecer respostas imediatas. O resultado lembra um cruzamento improvável entre o surrealismo de David Lynch e a tradição das comédias independentes norte-americanas. Nem sempre funciona. Em alguns momentos, o filme parece tão apaixonado por suas próprias esquisitices que corre o risco de perder o foco. Ainda assim, existe uma sinceridade emocional que impede que a experiência se torne apenas um exercício de estilo.

A representação queer é uma das forças mais interessantes da obra. O relacionamento de Cliff com Stew (Douglas Smith) carrega uma ternura discreta, enquanto as memórias de amores passados pairam sobre o protagonista como fantasmas sentimentais. Butler compreende que o desejo queer nem sempre é explosão, às vezes é apenas uma sensação persistente de ausência.

 “Lunar Sway” encontra sua personalidade nos desertos iluminados por néons, nos letreiros fluorescentes produzidos por Cliff e nas noites banhadas por luas aparentemente impossíveis. A fotografia de Dmitry Lopatin transforma a paisagem canadense em um território quase mitológico, onde cada esquina parece esconder uma revelação ou uma mentira. O filme vive de atmosferas, de texturas e de sensações.


“Lunar Sway” possui uma frequência particular, revelando uma reflexão sensível sobre amor, pertencimento e a busca por conexões em um mundo cada vez mais fragmentado. Entre humor absurdo, desejo queer e uma melancolia que nunca desaparece completamente, Nick Butler cria uma obra com personalidade.

Mean Boys (EUA, 2025)

“Mean Boys” parece saída de um algoritmo alimentado por “Meninas Malvadas”, redes sociais, triângulos amorosos bissexuais e uma dose de thriller adolescente. A trama acompanha Ira, um jovem excluído que se vê obcecado pelo círculo dos garotos populares de uma escola de Los Angeles onde todas as sexualidades coexistem abertamente. O que começa como uma história sobre pertencimento rapidamente mergulha em obsessão, drogas e manipulações emocionais.

Alexander Justin Gonzales claramente deseja construir uma sátira sobre fama digital, performatividade e juventude queer contemporânea. O problema é que o filme parece menos interessado em desenvolver essas ideias do que em empilhá-las. Cada nova cena apresenta um conflito diferente, uma revelação diferente ou uma reviravolta diferente, como se o roteiro estivesse em pânico diante da possibilidade de permanecer cinco minutos explorando uma única emoção,

Existe, porém, algo curiosamente fascinante nesse caos. Os personagens vivem num estado permanente de autopromoção emocional, transformando cada interação em espetáculo. A abordagem da sexualidade também merece crédito por evitar o tradicional drama de se assumir.. Aqui, os personagens já são assumidos; o conflito nasce da vaidade, do desejo, da insegurança e da necessidade de controle. Em seus melhores momentos, “Mean Boys” sugere uma leitura ácida sobre uma geração que aprendeu a transformar a própria vida em conteúdo.

Mas esses lampejos de inteligência raramente sobrevivem ao próximo corte de montagem. As atuações oscilam entre o aceitável e o exageradamente teatral, enquanto os diálogos frequentemente parecem ter sido retirados de comentários do Instagram escritos às três da manhã. Há cenas que se sucedem sem qualquer lógica emocional perceptível. 


Ainda assim, seria injusto negar que “Mean Boys” possui uma energia própria. Ela é desajeitada, excessiva e muitas vezes risível, mas existe. Gonzales demonstra ambição e vontade de falar sobre obsessão, validação social e desejo queer em tempos de redes sociais. O problema é que o filme parece tão apaixonado pelas próprias reviravoltas que esquece de construir uma história sólida para sustentá-las.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Boy George & Culture Club (Reino Unido/EUA, 2025)

Alison Ellwood já demonstrou interesse por figuras musicais que ajudaram a moldar a cultura pop, como Cyndi Lauper, e em “Boy George & Culture Club” encontra material fértil para revisitar uma das bandas mais emblemáticas dos anos 1980. O documentário acompanha a ascensão meteórica do grupo formado por Boy George, Jon Moss, Roy Hay e Mikey Craig, combinando entrevistas recentes com vasto material de arquivo para reconstruir uma trajetória marcada por sucesso, excessos e conflitos internos.

O filme não transforma Boy George no único protagonista. Embora o cantor continue sendo o centro da narrativa, Ellwood abre espaço para que Roy Hay, Mikey Craig e Jon Moss contem suas próprias versões da história. O resultado é um retrato mais coletivo do Culture Club, revelando como a mistura de reggae, soul, new wave e pop ajudou a criar uma sonoridade singular que dominou rádios e paradas internacionais.


O relacionamento amoroso entre Boy George e Jon Moss é apresentado como uma força criativa e destrutiva ao mesmo tempo, inspirando canções importantes enquanto gerava tensões nos bastidores. O documentário também relembra como George se tornou uma figura revolucionária para a cultura LGBTQIA+, desafiando expectativas de gênero e sexualidade em uma época muito menos receptiva à diversidade do que a atual. Ellwood sugere que muitas das discussões enfrentadas pelo artista nos anos 1980 continuam assustadoramente contemporâneas.

O filme encontra seus momentos mais emocionantes justamente quando abandona a cronologia convencional e mergulha nas feridas do grupo. A pressão da fama, o foco excessivo da imprensa em Boy George, os ressentimentos dos demais integrantes e os problemas com dependência química aparecem sem grandes rodeios. Não é um documentário investigativo ou particularmente confrontador, mas consegue transmitir a sensação de que o sucesso do Culture Club carregava um preço alto para todos os envolvidos.

A diretora aposta em uma linguagem bastante acessível, repleta de imagens de arquivo, performances televisivas e grafismos inspirados na estética dos anos 1980. Em alguns momentos, essa abordagem funciona como uma cápsula nostálgica irresistível; em outros, parece excessivamente convencional para uma história tão extravagante.

“Boy George & Culture Club” não pinta o retrato definitivo da banda, mas é um documentário envolvente, afetuoso e musicalmente rico. Mais do que celebrar sucessos como “Do You Really Want to Hurt Me” e “Karma Chameleon”, o filme recupera a importância cultural de um grupo que ajudou a redefinir a visibilidade queer no pop global. Ao final, permanece a sensação de que, por trás dos chapéus gigantes e dos refrões inesquecíveis, existia uma história muito mais complexa do que a fama permitia enxergar.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Tip Toe (Reino Unido, 2026)

 "Tip Toe" confirma que Russell T Davies continua sendo um dos cronistas mais inquietos da experiência queer contemporânea. A minissérie de cinco episódios abandona qualquer conforto nostálgico para mergulhar em um retrato feroz da Inglaterra atual, onde preconceitos antigos ganham novas formas através da desinformação digital. Ambientada em Manchester, a trama acompanha o choque entre Leo (Alan Cumming), dono de um bar na célebre Canal Street, e Clive (David Morrissey), um eletricista conservador cuja visão de mundo vai sendo contaminada por discursos de ódio cada vez mais normalizados.

A estrutura narrativa é um dos grandes diferenciais da série. Sem revelar detalhes decisivos da trama, basta dizer que a história se desenvolve em duas frentes temporais: um presente carregado de tensão e uma reconstrução gradual dos acontecimentos que levaram aqueles personagens até um ponto de ruptura. A direção de Peter Hoar encontra equilíbrio entre o suspense suburbano e o drama humano, transformando ruas aparentemente comuns em territórios de ansiedade constante.


O elenco é extraordinário. Alan Cumming entrega uma das melhores atuações de sua carreira como Leo, um homem espirituoso, vulnerável e cansado de perceber que batalhas que julgava vencidas precisam ser travadas novamente. David Morrissey, por sua vez, evita qualquer caricatura ao interpretar Clive, tornando ainda mais perturbador acompanhar sua trajetória.

"Tip Toe" é uma das produções mais relevantes do ano. Davies não quer somente celebrar a comunidade LGBTQIA+, mas discutir sua  fragilidade diante de um cenário social cada vez mais hostil. O bar de Leo funciona como espaço de acolhimento para diferentes identidades, incluindo personagens trans interpretados por Iz Hesketh e Shakeel Kimotho. Ao mesmo tempo, a série relembra a geração que sobreviveu à crise da AIDS, conectando aquelas lutas ao crescimento contemporâneo da homofobia e da transfobia

Embora trate de temas pesadíssimos, "Tip Toe" preserva o humor característico de Davies. Há momentos de afeto, ironia e humanidade que impedem a narrativa de se transformar em um exercício de desespero absoluto. A série também encontra espaço para discutir família, envelhecimento, masculinidade, relacionamentos e pertencimento.

Difícil assistir a "Tip Toe" sem sentir um nó no estômago. É uma obra que provoca, enfurece e entristece, mas que também reafirma a importância da arte como ferramenta de alerta. Davies não traz conforto emocional. Em vez disso, entrega uma série que encara de frente o medo, a intolerância e a fragilidade das conquistas sociais. O resultado é um thriller psicológico e político de enorme impacto, uma experiência angustiante que permanece ecoando muito depois do último episódio.