quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Girls & Boys (Irlanda, 2025)

Na noite de Halloween em Dublin, o jogador de rúgbi Jace (Adam Lunnon-Collery) conhece a aspirante a cineasta Charlie (Liath Hannon) em uma festa universitária no Trinity College Dublin. Vindos de universos distintos, ele expansivo e moldado por códigos tradicionais de masculinidade, ela introspectiva e ligada ao meio artístico, os dois estabelecem uma conexão imediata que se transforma em uma longa caminhada noturna pela cidade depois que a festa é dispersada. O que começa como um romance entre opostos gradualmente mergulha em questões de identidade queer, especialmente trans, desejo, memória e a pressão para corresponder a expectativas de normalidade nas relações contemporâneas.

Dirigido por Donncha Gilmore, “Girls & Boys”é um romance caminhante que segue a infalível fórmula Before.  Gilmore utiliza a topografia de Dublin não apenas como cenário, mas como extensão emocional dos personagens, explorando ruas vazias, pontes iluminadas e espaços liminares que reforçam a sensação de transição e descoberta. A cidade deixa de ser pano de fundo e passa a operar como um terceiro protagonista.

O roteiro aposta em conversas longas e por vezes improvisadas, em um processo colaborativo com os atores na construção das falas. O método resulta em uma naturalidade que sustenta o filme mesmo quando o ritmo desacelera. Há momentos em que a conversa juvenil ameaça soar excessivamente autoconsciente, mas a química entre Lunnon-Collery e Hannon impede que a narrativa se torne estática. 

Charlie articula experiências ligadas à identidade de gênero e à fluidez do desejo que desafiam a visão inicialmente normativa de Jace. “Girls & Boys” evita transformar a questão trans em dispositivo de choque ou reviravolta sensacionalista. Em vez disso, a descoberta ocorre por meio de conversa, desconforto e escuta, expondo o embate entre curiosidade genuína e condicionamentos sociais. O filme problematiza a masculinidade esportiva tradicional sem recorrer à caricatura, permitindo que Jace seja confrontado com suas próprias limitações afetivas.

A trilha sonora indie, reforça o clima geracional e imprime cadência à narrativa, acompanhando a progressão emocional da noite. Visualmente, Gilmore opta por uma fotografia que valoriza luzes naturais e uma textura levemente granulada, dando uma honestidade ao percurso. 

“Girls & Boys”  captura a insegurança de dois jovens atravessando fronteiras identitárias em uma cidade que carrega seus próprios contrastes entre tradição e mudança. Ao articular desejo, incerteza e deslocamento, o filme aborda de forma sensível questões trans e às reconfigurações da masculinidade. Sua força não está nas reviravoltas, mas na honestidade dos diálogos e na coragem de expor o desconforto como etapa necessária de qualquer aproximação verdadeira.


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