quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

The Moment (Reino Unido/EUA, 2026)

 “The Moment”, de Aidan Zamiri, é um mockumentary que mistura drama, comédia e sátira pop ao perseguir a ideia de fama através de um prisma excessivamente autocentrado. A obra acompanha Charli XCX interpretando uma versão caricatural de si mesma enquanto navega pela pressão de manter relevância e criatividade após o sucesso do álbum Brat e sua turnê nas arenas. Estruturado como uma falsa produção documental, o filme tenta desconstruir a cultura pop contemporânea e o espetáculo do estrelato, mas parte dessa desconstrução transforma-se rapidamente em um exercício de autopromoção contínuo, onde personagens, situações e gags orbitam em torno da própria persona e do círculo íntimo da protagonista.

A narrativa, ou a sensação de narrativa que o filme apresenta, frequentemente se perde em estranhos cortes e segmentos que parecem mais uma colagem de bastidores do que uma dramaturgia pensada para ressoar emocionalmente com quem assiste. Em diversos momentos, “The Moment” parece mais interessado em repetir fórmulas próprias de conteúdos de redes sociais do que em articular um arco dramático consistente: reuniões de produção, zoom calls intermináveis e micro-crises da estrela pop dominam a tela, muitas vezes sem que haja tensão ou humor suficientes para justificar sua presença ali.

No elenco nomes como Alexander Skarsgård, Rosanna Arquette, Rachel Sennot, Jamie Demetriou e até Kylie Jenner surgem como coadjuvantes cujas presenças chamativas pouco acrescentam além de momentos que simulam espontaneidade. Mesmo quando figuras externas à indústria pop, como diretores imaginários ou executivos sumariamente satirizados, entram em cena, suas participações oscilam entre a caricatura genérica e o vazio performativo.

Se há algo que poderia ser lido como pertinente à cultura queer dentro de “The Moment", essa leitura emerge não de um arco, mas do próprio universo pop que o filme ocupa e refere. A persona de Charli XCX e sua estética hiper-digital já circulam fortemente entre comunidades queer e fandoms LGBTQIA+ que celebram gêneros fluídos, performatividade sexual e uma relação específica com mídias e identidades online,  algo reconhecido em algumas piadas do filme que brincam com produtos voltados a um público “jovem e diversificado” e referências estilísticas ao hyperpop. 

Apesar de algumas sequências terem uma energia visual forte, cortes rápidos, iluminação neon, ritmo inspirado em videoclipes , essas virtudes técnicas raramente se traduzem em significado narrativo ou emocional. “The Moment” é um exercício de estilo que carece de crítica contundente.

O filme não chega a ser uma colisão completa de ideias, há lampejos de humor inteligente e momentos em que a performance de Charli XCX sugere uma vulnerabilidade tédio blasé, mas a impressão que fica ao assistir é de que “The Moment” funciona, muitas vezes, como um grande playground ego-referencial. Há uma constante sensação de que os elementos narrativos e estéticos foram moldados para alimentar, sobretudo, o ego da protagonista e seu círculo de colaboradores, transformando piadas internas e referências a uso de drogas ou comportamentos excêntricos em partes centrais do conteúdo cinematográfico, deixando a experiência mais próxima de um grande vídeo musical prolongado com um elenco vasto usado apenas como acessório.


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