Em “The Serpent’s Skin”, Alice Maio Mackay, a jovem cineasta trans australiana de apenas 21 anos, entrega seu sexto longa-metragem com a mesma urgência punk e a precisão estética que já marcaram sua filmografia. O que poderia ser apenas mais um exercício de horror indie revela-se, na verdade, um manifesto queer supernatural que transforma o gênero em veículo de afirmação trans: Anna (Alexandra McVicker), uma jovem que foge de uma cidadezinha transfóbica, encontra em Gen (Avalon Fast), uma tatuadora gótica, não apenas um romance, mas um espelho de poderes latentes. Mackay, que insiste em rotular cada obra como “um filme transgênero”, ocupa o espaço com uma confiança que o cinema queer mainstream raramente alcança.
A trama segue o clássico arco de autodescoberta sobrenatural. Anna e Gen descobrem que compartilham habilidades psíquicas que, em vez de isolá-las, as aproximam, até que um demônio invocado por uma tatuagem malfeita começa a se alimentar de suas inseguranças. Aqui, o horror não é externo: ele é a projeção literal das feridas internas que o mundo cis-hetero insiste em infligir. Mackay e o co-roteirista Benjamin Pahl Robinson transformam o clichê do “poder perigoso” em metáfora afiada para a transição e o desejo queer: usar magia (ou hormônios, ou visibilidade) sempre carrega o risco de convocar monstros, mas também a possibilidade de derrotá-los juntas.
Esteticamente, o filme bebe de referências da diretora, fã declarada de "Buffy" e é um banho de neon dos anos 90 revisitado por lentes low-budget que nunca parecem baratas. A fotografia de Aaron Schuppan (colaborador de longa data de Mackay) banha as cenas de um rosa-choque e azul-elétrico que dialogam diretamente com o imaginário das bruxas adolescentes de “Jovens Bruxas”, mas com uma sensualidade sáfica explícita e sem pudores. Os enquadramentos oníricos, os cortes ritmados por Vera Drew (de “People’s Joker”) e a trilha que mistura industrial e synthwave criam uma atmosfera onde o corpo trans não é objeto de horror, mas fonte de encanto e terror erótico.
As atuações ancoram o feitiço. Alexandra McVicker, como Anna, constrói uma vulnerabilidade que nunca resvala para o melodrama; sua timidez inicial se dissolve em poder com uma naturalidade que emociona. Avalon Fast, como Gen, é pura eletricidade gótica, permitindo que uma bruxa sáfica seja ao mesmo tempo perigosa e profundamente desejável. O romance entre elas não é subplot: é o encantamento do filme, escrito com a mesma fluidez com que as duas manejam sua magia.
“The Serpent’s Skin” destaca como Mackay recusa o binarismo fácil entre “trans joy” e trauma. As inseguranças das protagonistas não são exploradas para gerar pena, mas para serem confrontadas e, literalmente, exorcizadas. O demônio não é punição pelo desejo queer; ele é o preço que se paga por finalmente reivindicá-lo. Nesse sentido, o filme dialoga com toda a tradição de horror queer (de “Carrie” a “T Blockers”, da própria Mackay), mas avança: aqui o final não é sobrevivência solitária, mas comunidade mágica.
“The Serpent’s Skin” consolida Alice Maio Mackay como uma das diretoras mais jovens e importantes da nova onda do cinema queer global. Não é apenas mais um filme de terror indie; é um ritual de passagem cinematográfico que celebra a pele que trocamos, a magia que conjuramos e os demônios que aprendemos a domar, sempre, é claro, de mãos dadas.
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