“Blank Narcissus (Passion of the Swamp)” dura pouco mais de onze minutos, mas parece condensar uma história inteira do desejo queer em miniatura. Peter Strickland, cineasta que construiu carreira explorando fetiche, textura e erotismo em obras como “The Duke of Burgundy” e “In Fabric”, aqui radicaliza ainda mais seu projeto estético. O ponto de partida é deliciosamente absurdo: em 2022, um envelhecido diretor de filmes pornôs grava comentários em áudio para o relançamento de um obscuro pornô underground em 16mm realizado em 1972, uma referência à “Pink Narcissus”. Enquanto ouvimos suas lembranças, vemos o protagonista atravessar uma sequência de devaneios eróticos artificiais e hipnóticos.
O que poderia virar apenas exercício de estilo rapidamente revela outra coisa. O dispositivo do comentário em DVD transforma “Blank Narcissus” numa obra sobre memória e perda. O diretor, dublado por Michael Brandon, não está simplesmente comentando um filme antigo, ele está tentando reviver um amor que ficou preso dentro das imagens. Cada observação técnica acaba se convertendo em confissão sentimental. O desejo aparece como arquivo deteriorado, algo que permanece vivo justamente porque nunca foi totalmente consumado.
Visualmente, Strickland entrega um dos objetos mais assumidamente kitsch da sua filmografia. O título já anuncia sua linhagem: uma brincadeira direta com “Pink Narcissus”, clássico queer de James Bidgood, cuja influência aparece no erotismo artificial, nos cenários evidentemente falsos e no prazer em transformar corpo masculino em superfície decorativa. Aqui não existe preocupação com realismo. Existe cetim demais, fumaça demais, cor demais. O erotismo não nasce do naturalismo, nasce justamente do exagero e da fabricação. É um filme que entende o camp não como ironia vazia, mas como linguagem afetiva.
Strickland transforma pornografia em melancolia. Embora o universo pornográfico organize toda a narrativa, o curta nunca parece interessado em excitação direta.. O diretor dentro da narrativa parece incapaz de separar desejo, autoria e saudade. Existe algo profundamente triste na ideia de que seu grande amor sobreviva apenas como material restaurado, pronto para consumo de novos espectadores décadas depois.
“Blank Narcissus” funciona como uma pequena cápsula do tempo sobre memória homoerótica. Em vez de tratar o passado gay como trauma ou segredo, o curta o apresenta como performance, fantasia e encenação. O amor entre diretor e ator nunca é romantizado nem explicado demais, apenas permanece suspenso entre erotismo e arrependimento.
“Blank Narcissus (Passion of the Swamp)” talvez seja um filme mínimo dentro da carreira de Peter Strickland, mas também parece uma chave secreta para entender sua obra inteira. Fetiche, performance, memória, som e obsessão estão todos aqui. Em apenas doze minutos, ele cria um pornô imaginário que acaba se revelando um melodrama sobre envelhecer e continuar desejando. E talvez essa seja sua ideia mais bonita: algumas paixões sobrevivem porque nunca deixaram de ser ficção.
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