quarta-feira, 27 de maio de 2026

Sidosa (Espanha, 2026)

“Sidosa”, documentário de Lluís Galter e Màrius Sánchez, já nasce carregando uma provocação no próprio título. A palavra, historicamente usada como insulto homofóbico e misógino na Espanha, é reapropriada aqui como gesto político, íntimo e quase desesperado. O filme acompanha o ator e diretor Eduardo Casanova no momento em que decide tornar pública uma informação que manteve em silêncio desde a adolescência: vive com HIV desde os 17 anos. O que poderia facilmente se transformar num relato pedagógico ou excessivamente solene encontra outro caminho, prefere a vulnerabilidade desconfortável, a ironia amarga e o humor como formas de desmontar o estigma.

Ao lado do jornalista Jordi Évole, que também atua como produtor e interlocutor constante, Casanova revisita médicos, enfermeiras, amigos e memórias que moldaram sua experiência com o vírus. Existe algo profundamente metacinematográfico na estrutura do documentário. Não é apenas um filme sobre HIV, mas um filme sobre alguém tentando reorganizar retrospectivamente a própria imagem pública.

A escolha de Galter e Sánchez de não transformar o HIV em espetáculo trágico talvez seja a maior qualidade do longa. “Sidosa” não busca lágrimas nem a estética da superação inspiradora. Pelo contrário, dialoga com a estética do cineasta, trabalhando constantemente no terreno da contradição. Casanova ri, faz piadas, encena exageros, flerta com o absurdo e frequentemente parece esconder dor atrás de performance. Essa oscilação entre sinceridade e teatralidade combina perfeitamente com sua persona artística, construída justamente sobre excesso visual, desconforto e corpos considerados desviantes.

O filme não fala apenas sobre diagnóstico, mas sobre vergonha histórica, silêncio e sobrevivência LGBTQIA+ dentro de uma sociedade que ainda associa HIV a punição moral. Há uma dimensão política importante no fato de um artista conhecido como Casanova tornar pública sua sorologia. O documentário insiste que o problema nunca foi o vírus em si, mas o imaginário de exclusão construído ao redor dele. Ao reapossar-se da palavra “sidosa”, o filme transforma insulto em identidade de resistência, numa operação profundamente queer de ressignificação da violência verbal.

Mais do que um coming out sorológico, o documentário é um filme sobre o direito de existir. Galter e Sánchez entendem que o maior gesto político do documentário não está em transformar Casanova em símbolo, mas em permitir que ele permaneça contraditório, vaidoso, engraçado, ferido e excessivo.




Nenhum comentário:

Postar um comentário