O tema favorito da diretora argentina Milagros Mumenthaler é o de mulheres em momentos de transformação. Em seu terceiro longa-metragem após "Abrir Portas e Janelas" e "La Idea de Un Lago", ela se aprofunda nessa ideia, criando um retrato intimista de sua protagonista enquanto atravessa uma avassaladora crise de identidade que se manifesta física e simbolicamente através de sua relação com o elemento mais ancestral da vida: a água. Em "As Correntes", Isabel Aimé González Sola interpreta Lina, uma estilista de 34 anos, aparentemente realizada tanto profissionalmente quanto em sua vida pessoal ao lado do marido Pedro (Esteban Bigliardi) e de sua filha pequena Sofia (Emma Fayo Duarte). O filme começa com uma longa sequência sem diálogos, na qual encontramos Lina durante uma viagem rápida para a Suíça. Após receber um prêmio em homenagem ao seu trabalho, ela começa a vagar sozinha por ruas vazias, como se algo invisível chamasse por ela, até parar em uma ponte e subitamente se jogar nas águas geladas do rio. Depois de ser resgatada, Lina descobre que desenvolveu um estranho caso de hidrofobia. Incapaz de ter o menor contato com água sem entrar num pânico terrível, ela retorna para a Argentina tentando manter uma aparência de normalidade. Para isso, ela pede a ajuda de Amalia (Jazmín Carballo), uma antiga amiga que ela não via há muito tempo, para lavar seu corpo e seus cabelos enquanto ela fica sob anestesia geral.
Muito mais do que um estudo de personagem baseado na maravilhosa performance de sua atriz principal, "As Correntes" é uma narrativa sensorial aberta a diversas interpretações, no sentido de que a trama se desenrola através das percepções de Lina do mundo ao seu redor e de si mesma, sensações que não necessariamente conseguem se traduzir em palavras. Na verdade, nos momentos em que Lina tenta explicar verbalmente o que acontece com ela, é como se o mistério apenas se complicasse. Inclusive, Mumenthaler adota em vários momentos um pouco da linguagem de filmes de mistério para refletir a maneira como a personagem de Lina investiga a si própria, com longas caminhadas por corredores e olhares que interrogam os ambientes e objetos que encontra. Mas essa abordagem acaba revelando mais da própria relação de Lina com as imagens, ainda mais quando fica claro que muito da crise pela qual ela está passando foi desencadeada pela visão de uma tapeçaria específica, retratando um grupo de mulheres fiandeiras. Seria como se essa imagem a colocasse em conflito com seu próprio papel de mulher e estilista. O ato de se produzir ou de se observar obras de arte é presente em toda a narrativa, e a forma como isso afeta Lina e seu medo de água sugere um tipo muito específico de Síndrome de Stendhal, que causa reações físicas e emocionais fortíssimas em certos indivíduos expostos a alguma beleza artística transcendental. Mas essa ainda é uma leitura rasa para descrever tudo o que ocorre com Lina, sintomas de um conflito direto consigo mesma.
Dessa forma, não demora para a história se mostrar pertencendo a uma lógica mais simbólica, dotada dos elementos surreais de um devaneio. Em especial numa outra longa sequência que acontece no final do segundo ato, quando a consciência de Lina parece acompanhar a luz de um farol, se conectando com todas as pessoas e objetos que toca. Embalado pela música "Vênus, o Mensageiro da Paz", o segundo movimento da suíte orquestral "Os Planetas", composta por Gustav Holst, esse é talvez o melhor momento do filme - se alguém for propenso à tal Síndrome de Stendhal, é melhor tomar cuidado. A sequência é um contraponto a um dos medos que Lina revela numa cena anterior, quando diz se considerar efêmera. É na conexão com outras pessoas e com o universo que elas habitam que ela começa a se reconectar consigo própria.
Depois disso, nota-se que o filme perde um pouco de sua intensidade antes do final, mas isso até chega a imitar o processo de uma crise começando a se resolver. Aos poucos, Lina passa a questionar o quanto de si mesma ela teve que censurar ou ignorar para criar essa versão da mulher perfeita, da estilista famosa que recebe prêmios na Suíça. Por exemplo, ao confrontar a figura esquecida de sua mãe, uma mulher agorafóbica e solitária morando num bairro pobre e afastado, ela também confronta sua própria imagem de esposa e mãe escondendo um distúrbio mental. O filme também dá a entender, pelos temores de Pedro ao saber que Lina e Amalia se reencontraram, que o relacionamento anterior das duas poderia ser mais do que uma simples amizade, e que Lina também estaria no processo de redescobrir sua sexualidade. É uma noção reforçada em outro momento, quando o olhar investigativo de Lina cai sobre detalhes da anatomia de sua assistente Julia (Ernestina Gatti), com um misto de curiosidade e desejo, mas também com o estranhamento de perceber outra mulher a sua frente que também pode conter um oceano profundo, cheio de mistérios sem solução.
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